Handout / TELAM / AFP
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Ex-secretário que acusou Cristina Kirchner de corrupção é assassinado

Fabián Gutiérrez, de 47 anos, foi encontrado embrulhado em um lençol no quintal de uma casa; em 2018, ele detalhou um suposto complô de suborno em obras públicas durante os governos Kirchner

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2020 | 09h50

O assassinato de um ex-secretário da atual vice-presidente e ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, provocou uma forte controvérsia no país, já que em 2018 ele a acusou de supostamente ter carregado bolsas de dinheiro proveniente de suborno em obras públicas. A oposição chamou o fato de "crime de gravidade institucional", comentário que o presidente Alberto Fernández considerou "desonesto" no domingo, 5. 

O corpo de Fabián Gutiérrez, de 47 anos, foi encontrado semi-enterrado e embrulhado em um lençol no quintal de uma casa em El Calafate, a 2.700 quilômetros ao sudoeste de Buenos Aires, onde ele tinha uma de suas residências. O juiz que investiga o assassinato disse que "não há indícios de motivação política". Ele foi durante mais de dois anos um secretário bastante próximo de Cristina Kirchner. 

Gutiérrez, que foi detido e julgado em 2018, foi delator na chamada "causa dos cadernos" e detalhou um suposto complô de suborno em obras públicas durante os governos Kirchner (2003-2015) envolvendo empresários, ex-funcionários e também a ex-presidente. Ele foi processado por lavagem de dinheiro. 

Na época, afirmou que chegavam na Casa Rosada durante a noite mochilas e bolsas que, em sua opinião, teriam dinheiro, apesar de nunca ter visto as notas. Gutiérrez disse ainda que havia sacos com cadeados que iam nos voos de Buenos aires até a Patagônia realizados pela ex-presidente todos os fins de semana, e que em sua casa em El Calafate havia uma porta branca sempre fechada depois de um lance de escadas, onde ele acredita que se guardava dinheiro, segundo relatos do jornal El País

A coalizão de oposição Juntos por el Cambio, liderada pelo ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), chamou a morte de Gutiérrez de "um crime de extrema gravidade institucional" em um comunicado que alertava para uma "possível conexão de sua morte com crimes federais", em referência ao escândalo de corrupção. 

"O documento da oposição que semeia dúvidas sobre a morte de Gutiérrez é escandaloso", reagiu o presidente em declarações no domingo à rádio Milenium. "Queremos saber o que aconteceu com Fabián Gutiérrez, mas sugerir que foi motivada pela causa dos cadernos e que o governo pode estar envolvido nela é uma atitude tão miserável que é difícil de entender", acrescentou. 

O Ministério da Segurança esclareceu que Gutiérrez nunca pediu para ser uma testemunha protegida e por isso não tinha custódia oficial. Gutiérrez, natural da província de Santa Cruz, um reduto histórico do casal Kirchner, do qual era próximo desde a juventude, deixou o cargo de secretário da ex-presidente em 2010. 

Dono de uma grande fortuna, segundo a imprensa argentina, desde então viveu entre Buenos Aires e a cidade turística de El Calafate. O corpo de Gutiérrez foi encontrado no sábado embrulhado em um lençol no fundo de uma casa perto de sua residência, onde o crime teria sido praticado, segundo as investigações iniciais. 

O corpo tinha marcas de socos na cabeça e de uma facada no pescoço. No local, também foram encontrados equipamentos roubados da casa da vítima, disse o juiz Carlos Navarte. Um dos quatro detidos, de 20 anos, teve um relacionamento afetivo com Gutiérrez. 

"Pode ter havido um desacordo, uma briga e isso levou ao fato", disse o juiz à rádio Mitre. Os parentes de Gutiérrez pediram em uma declaração "a jornalistas e líderes de todo o arco político" que permitam à justiça agir "além de fazer especulações dolorosas e interessadas de todos os tipos". / AFP

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