Ex-técnico da CIA admite ter revelado esquema de vigilância do governo

Espionagem. Edward Snowden, de 29 anos, pediu ao Guardian que informasse sua identidade depois de se esconder em um hotel em Hong Kong; ele diz que será perseguido por denunciar o acesso do FBI e da NSA às centrais das maiores empresas de internet

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2013 | 02h08

A fonte que revelou ao jornal britânico The Guardian o programa secreto de grampos telefônicos e vigilância na internet do governo americano divulgou sua identidade ontem. Pouco depois de a Agência Nacional de Segurança (NSA) pedir a abertura de investigação criminal do caso, Edward Snowden, de 29 anos, contou ao diário londrino seus motivos para revelar o projeto secreto de espionagem ao mundo.

A fonte trabalhava como analista de dados da Booz Allen Hamilton, uma empresa terceirizada contratada por um escritório da NSA no Havaí. Antes disso, foi técnico da CIA. Ele decidiu divulgar sua identidade e disse ter consciência de que será punido. Segundo o Guardian, Snowden deixou os EUA há três semanas e foi para Hong Kong, onde está desde então.

"Minha única motivação é informar ao público, assim como dizer o que é feito em nome dele e o que é feito contra ele", afirmou Snowden ao jornal. "Eu não tenho intenção de esconder quem sou, pois não fiz nada errado. Não me vejo como um herói porque o que estou fazendo é de meu próprio interesse: não quero viver em um mundo onde não há privacidade nem espaço para a exploração intelectual e a criatividade. O que eles (o governo) estão fazendo é uma ameaça existencial à democracia."

Desde meado de 2000, Snowden atuou como segurança em uma unidade da NSA na Universidade de Maryland. Depois, começou a trabalhar na CIA, que o enviou como agente para um posto diplomático em Genebra. Ali, começou a ter acesso a documentos secretos do governo.

De volta ao NSA, como funcionário de empresas terceirizadas, trabalhou em uma base militar americana no Japão e, finalmente, no Havaí. Ele teria perdido as esperanças de ver o governo de Barack Obama mudar os rumos da política de vigilância em vigor desde o governo de George W. Bush. "Vi que Obama estava avançado nas mesmas políticas que eu achava que seriam refreadas", disse.

Segundo Snowden, a NSA busca estar ciente "de toda conversa e toda forma de comportamento no mundo". O programa secreto usado pela agência desde 2007 é capaz de processar dados colhidos dos servidores centrais das maiores companhias internet dos EUA - Microsoft, Apple, Google, Facebook, Yahoo, AOL, entre outras - e também de registros de telefonemas da operadora Verizon.

Snowden afirmou ao jornal britânico estar ciente de que o governo americano vai "demonizá-lo" e processá-lo com base na Lei de Espionagem.

Desde que as notícias vazadas por ele começaram a ser publicadas, Snowden assiste compulsivamente aos telejornais e acompanha os sites de notícias na internet. Cobre a cabeça e o laptop com um capuz vermelho para digitar a senha para abrir seu computador, para evitar câmeras. Snowden saiu do quarto apenas três vezes.

Ele deixara o Havaí sem dar explicação à namorada, com quem dividia uma casa. Ao chefe, no NSA, disse que precisaria de algumas semanas de folga para tratar epilepsia. Segundo o Guardian, seu salário era de US$ 200 mil ao ano. Embora dependa de difícil negociação com o governo chinês, os EUA podem conseguir sua extradição para julgá-lo em casa. O governo chinês também pode convencê-lo a colaborar.

O diretor nacional de Inteligência, James Clapper, disse durante programa na NBC que pediu ao Departamento de Justiça a abertura de investigação criminal contra o responsável pelos vazamentos. Ele não mencionou o nome de Snowden, que já estava sendo procurado. Apenas referiu-se ao autor como "alguém que decidiu violar a confiança de seu país".

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