Alexander Ingram/The New York Times
Alexander Ingram/The New York Times

Ex-youtuber da extrema direita explica seus métodos para disseminar o ódio

Foque no conflito. Alimente o algoritmo. Certifique-se de que tudo o que você produz reforça uma narrativa. Não se preocupe se isso é verdade. É assim que agia Caolan Robertson - e ceentenas de outros.

Cade Metz / The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2021 | 14h02

Em 2018, um apoiador da extrema direita, Tommy Robinson, postou um vídeo no youtube alegando que havia sido atacado por um imigrante africano em Roma.

A imagem em miniatura e o título de oito palavras promovendo o vídeo indicavam que Robinson foi atacado por um homem negro do lado de fora de uma estação de trem. Então, no vídeo, Robinson dava um soco no queixo do acusado, fazendo com que ele caísse no chão.

O vídeo foi visto mais de 2,8 milhões de vezes e gerou notícias em tabloides de direita no Reino Unido, onde Robinson estava rapidamente ganhando fama por suas visões anti-imigrantes e anti-islâmicas.

Para Caolan Robertson - cineasta que trabalhou para Robinson e ajudou a criar o vídeo - foi uma experiência didática. Ele mostrou os principais ingredientes necessários para atrair a atenção no YouTube e em outros serviços de mídia social.

O vídeo tocou em sentimentos anti-imigrantes no Reino Unido e em toda a Europa. Ele também focou diretamente no conflito, com cortes bruscos entre gritos e empurrões antes de mostrar o soco de Robinson. Além disso, deturpou o que realmente aconteceu.

“Escolheríamos o momento mais dramático - ou fingiríamos e faríamos parecer mais dramático”, disse Robertson, 25 anos, em uma entrevista recente. “Percebemos que, se queríamos um futuro no YouTube, era preciso focar no confronto. Cada vez que fazíamos esse tipo de coisa, os vídeos tinham mais visualizações.”

Robertson continuaria a produzir vídeos para uma lista de personalidades da direita para o YouTube em ambos os lados do Atlântico, incluindo Lauren Southern, Stefan Molyneux e Alex Jones.

Os vídeos eram feitos sob medida para ganhar espaço entre as sugestões de vídeos semelhantes que costumam ser apresentadas por redes sociais como o YouTube. Para mantê-lo no site, o YouTube oferece vídeos parecidos aos que você assistiu antes. Mas quanto mais tempo alguém fica assistindo aos vídeos, mais extremos eles podem se tornar.

“Isso pode dar espaço a essas pessoas muito radicais que são como gurus”, disse Guillaume Chaslot, um ex-engenheiro do YouTube que criticou a forma como os algoritmos da empresa levavam as pessoas a conteúdos extremos. “Em termos de tempo de exibição, um guru é maravilhoso.”

Empresas de tecnologia, legisladores e indivíduos em todo o mundo estão lutando para entender e controlar o enorme poder do YouTube e de outros serviços de mídia social. Em 2019, o YouTube fez “mudanças importantes na forma como recomendamos vídeos e evitamos a disseminação de desinformação e conteúdo de ódio”, disse Farshad Shadloo, porta-voz da empresa, em um comunicado. Isso barrou Molyneaux e Jones. Mas os vídeos extremistas continuam a se espalhar.

Com o tempo, segundo Robertson, ele percebeu que os vídeos em que trabalhou alimentavam um ódio perigoso. E em 2019, em uma entrevista na Grã-Bretanha organizada por um jornal de esquerda, o Byline Times, Robertson distanciou seu trabalho da extrema direita. Sua mudança de opinião foi recebida com algum ceticismo.

“Ele foi apresentado como um filho pródigo”, disse Louise Raw, uma ativista antifascista que estava no palco para o mea culpa de Robertson. "Mas ele não foi responsabilizado."

Agora Robertson está detalhando as maneiras como ele e seus colaboradores pesquisaram confrontos para ganhar popularidade no YouTube.

Os esforços para entrar em contato com Robinson não tiveram sucesso e Jones não respondeu aos vários pedidos de entrevista. Lauren disse que ela não deve ser descrita como uma defensora da extrema direita, afirmou ser apenas uma conservadora. Ela não estava envolvida em “nenhuma fraude horrível de extrema direita que tentou enganar as pessoas para que assistissem ao nosso conteúdo”, acrescentou. “Estávamos fazendo o que qualquer outro youtuber faz.”

Imagens sem edição do episódio em Roma, fornecidas por Robertson e analisadas pelo New York Times, mostram que o vídeo publicado no YouTube foi editado para dar a falsa impressão de que Robinson foi ameaçado. A filmagem sem cortes mostra que ele foi o agressor.

Ao longo dos mais de dois anos em que ajudou a produzir e publicar vídeos para Robinson e outros, Robertson aprendeu que ao fazer edições com maestria focando no confronto poderia ajudar a atrair milhões de visualizações no YouTube e em outros serviços. Ele também aprendeu como o algoritmo de recomendação do YouTube costuma levar as pessoas a vídeos extremistas.

“Isso fez com que fizéssemos mais e mais vídeos extremistas”, disse Robertson. Ele cresceu na Irlanda e depois que seus pais se divorciaram, mudou-se com o pai para uma área predominantemente de classe trabalhadora no norte da Inglaterra.

Percebendo desde muito jovem que era gay, muitas vezes sentia como se não se encaixasse ali. Mas disse que encontrou homofobia mais explícita quando se mudou para Londres para fazer faculdade e caminhou pelos bairros predominantemente muçulmanos na região conhecida como East End.

Depois do atentado a uma boate gay em 2016, em Orlando, Flórida - onde um muçulmano que jurava lealdade ao grupo do Estado Islâmico matou 49 pessoas e feriu mais 53 - Robertson desenvolveu uma hostilidade extrema contra os muçulmanos, principalmente os imigrantes. Sua raiva foi alimentada em grande parte, disse ele, pelos vídeos que assistia no YouTube.

Ele começou assistindo a vídeos de veículos de comunicação conhecidos, como um episódio do programa da HBO “Real Time With Bill Maher”, no qual Sam Harris, autor e apresentador de podcast, defendia maiores críticas às crenças muçulmanas. O algoritmo de recomendação do YouTube sugeriu vídeos mais radicais envolvendo personalidades como Robinson, cujo nome de batismo é Stephen Yaxley-Lennon, que é ex-integrante do Partido Nacional Britânico, que defende uma agenda neofascista e o nacionalismo branco.

Em 2017, Robertson entrou em contato com Robinson e logo começou a trabalhar para ele como produtor de vídeo. No final do ano, ele também estava colaborando com Lauren, uma youtuber do Canadá.

No ano seguinte, Robertson e Lauren viajaram para lugares distantes como a África do Sul, Austrália e Nova Zelândia para criar vídeos semelhantes. Ao longo da vida do canal de Lauren no youtube, de acordo com estatísticas do canal analisadas pelo Times, seus vídeos foram vistos mais de 63 milhões de vezes.

Mais de 71% das pessoas que assistiram a esses vídeos não haviam se inscrito em seu canal no YouTube. Em 2018, no auge de sua popularidade, pelo menos 30% das visualizações ocorreram depois que os vídeos foram recomendados automaticamente ao espectador pelos algoritmos do YouTube.

Molyneux evitou o tipo de conflito que Lauren abraçou. Ele se transformou em um filósofo on-line. Mas o material que Robertson editou escorregou em “ideias de extrema direita que atraíram os etnonacionalistas - o público de extrema direita”, disse ele.

Em 2018, a dupla viajou para a Polônia para fazer um vídeo que pintava o país como um lugar livre de adversidades e conflitos. Nas entrelinhas, a razão era a Polônia ser predominantemente branca. Em um e-mail para o Times, Molyneux disse: “Foi bom estar em um país onde não precisei contratar um segurança para me proteger”. Ele acrescentou que se sentiu da mesma forma quando visitou Hong Kong.

No início de 2019, Robertson disse ter ficado decepcionado. Houve uma queda notável no tráfego do canal do YouTube de Lauren. Na mesma época, o site começou a remover mais vídeos que a empresa acreditava que encorajavam a violência e espalhavam desinformação.

Depois que um australiano matou 51 pessoas em duas mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia - incentivado em parte por ideias anti-imigrantes propagadas pelo YouTube - Robertson se deu conta, disse ele, que os vídeos que ele fazia levavam ao mesmo tipo de violência que aconteceu em 2016, na boate em Orlando. “Senti como se tivesse fechado um ciclo naquele dia”, disse ele.

Agora, Robertson supervisiona a Byline TV, uma versão em vídeo do Byline Times. Ele também dirige uma nova organização, a Future of Freedom, que busca desradicalizar extremistas de direita. Mas continua de olho nas visualizações do YouTube.

Robertson recentemente se gabou em uma mensagem que em um dia um vídeo direcionado a Jones, o teórico da conspiração com quem ele trabalhou, foi visto mais de 250 mil vezes. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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