Exame das eleições na Flórida pela imprensa é inconclusivo

O mais abrangente estudo já realizado sobre as eleições presidenciais de novembro do ano passado na Flórida concluiu que a vitória do presidente George W. Bush teria sido confirmada, mesmo se a Suprema Corte dos Estados Unidos tivesse dado ganho de causa a seu rival democrata, Albert Gore, e autorizado a recontagem dos votos nos quatro distritos eleitorais nos quais o então vice-presidente dos EUA contestou os resultados. Nesse caso, Bush teria ganho por 225 votos, ou 312 menos do que o resultado oficial, que lhe deu uma margem de 537 votos num universo de quase 6 milhões de eleitores - uma diferença de apenas 0,00087%. Com a vitória da Flórida, Bush conquistou o número necessário do colégio eleitoral para chegar à presidência, embora tenha recebido 500 mil votos menos do que seu rival democrata na contagem nacional de todos os sufrágios.Gore teria sido o vencedor apenas se tivesse contestado as eleições em todos os mais de noventa distritos eleitorais da Flórida e obtido o respaldo da Justiça para uma recontagem completa do Estado. Nesse cenário, ele teria batido Bush por uma diferença de 107 a 171 votos, dependendo do critério utilizado na apuração para detectar a intenção de eleitor e compensar problemas como desenho confuso da cédula e falhas mecânicas das máquinas de votação.O estudo, custou US$ 900 mil e envolveu o exame de uma amostragem de 175 mil votos em 67 distritos. Ele encomendado por um consórcio de empresas jornalísticas que incluiu os jornais The New York Times, The Washington Post, The Wall Street, a agência Associated Press e a rede de televisão CNN. A publicação dos resultados é importante não apenas porque confirma a impossibilidade de se determinar, com absoluta certeza, o real ganhador de eleição na Flórida diante da margem microscópica de diferença entre os dois candidatos. Ela também demole a teoria conspiratória que circulou pela Internet nas últimas semanas, e que alguns jornais, inclusive no Brasil, chegaram a transformar em notícia, segundo a qual as empresas que patrocinaram a recontagem teria decido esconder seu resultado porque este dava a vitória a Gore e sua revelação comprometeria a autoridade de Bush no momento em que os Estados Unidos estão engajados numa guerra do Afeganistão.Mesmo que esta tivesse sido a conclusão do estudo, é improvável que ele tivesse conseqüência política significativa. Gore, que se preparava para anunciar sua disposição de ir à revanche em 2004, mudou de planos depois dos atentados terroristas de 11 de setembro passado. Em lugar de anunciar sua candidatura num jantar do Partido Democrata no estado de Iowa, no dia 16 de setembro, o ex-vice-presidente declarou que, com o país em guerra, Bush "é meu comandante". Além disso, os americanos não estão mais interessados no assunto, não duvidam da legitimidade de seu líder e, no momento, aprovam sua conduta na presidência por uma margem de 90%. A disposição das redes de televisão de atender a pedidos da administração e autocensurar a divulgação das mensagens de vídeo de Osama bin Laden é tema de crescente controvérsia sobre o papel que a imprensa americana vem desempenhando na guerra contra o terrorismo. Mas a teoria de que jornais, agências de notícia e a CNN estavam se furtando a dar o resultado do exame que fizeram da eleição presidencial da Flórida não era parte da discussão. E a publicação do estudo confirma que não havia razão para isso.

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