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Exclusão de candidatos do Irã amplia favoritismo de aliado do líder supremo

A exclusão de dois nomes fortes das eleições do dia 14 no Irã - Akbar Hashemi Rafsanjani, apoiado por reformistas, e Esfandiar Rahim Mashaei, afilhado político do presidente Mahmoud Ahmadinejad - abre caminho para Saeed Jalili, tido como o preferido do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. A ascensão dele seria estratégica: Jalili chefia as negociações do programa nuclear, tema que une iranianos e os aproxima do regime.

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2013 | 02h05

"Após os protestos de 2009 e anos de turbulência e desentendimentos com Ahmadinejad, Khamenei tenta recolocar o país nos trilhos e na direção que ele quer", disse ao Estado Suzanne Maloney, pesquisadora do Brookings Institution e ex-assessora do Departamento de Estado americano, que acompanha as eleições. Khamenei busca colocar no cargo um conservador leal a sua autoridade. "Jalili é o escolhido."

Jalili nasceu na cidade de Khamenei, Mahshad, no nordeste do Irã, que atrai 20 milhões de peregrinos por ano ao mausoléu do imã Reza, adorado pelos xiitas. Aos 22 anos, lutou contra o Iraque em uma guerra sangrenta que ameaçou o nascimento da república islâmica, entre 1980 e 1988 - perdeu parte da perna direita em combate.

Ele fez doutorado em ciências políticas na Universidade Imam Sadeq, em Teerã, reduto de conservadores - sua tese foi sobre a diplomacia do Profeta Maomé, assunto que costuma levar à mesa de negociações com autoridades ocidentais - e, nos anos seguintes, serviu no Ministério das Relações Exteriores.

Ao longo da carreira, construiu uma reputação de lealdade ao líder supremo, que o convidou para dirigir seu gabinete. Em 2007, foi nomeado secretário-geral do Conselho Supremo de Segurança Nacional, cargo que ocupa desde então.

Aos 47 anos, Jalili chefia as negociações com o Ocidente sobre o controverso programa nuclear. Foi o enviado à Suíça para encontro reservado com o então subsecretário de Estado americano, William Burns, em 2009, na primeira reunião diplomática entre os dois países em 30 anos, desde a Revolução Islâmica. Sentou-se com Brasil e Turquia numa tentativa fracassada de acordo, em 2010, e negocia diretamente com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e Alemanha. Embora com um tom menos provocador do que Ahmadinejad, ele sustenta firmemente o direito de Teerã ao programa nuclear.

Ao Christian Science Monitor, na semana passada, em Istambul, onde esteve para um jantar com a chanceler da União Europeia, Catherine Ashton, Jalili disse: "A Revolução Islâmica moldou meu pensamento e sei que uma nação pode defender seus direitos e fazer progressos, apesar do que certas potências como os EUA gostariam de ver."

O discurso tem grande apelo entre a população iraniana, que tem o programa nuclear como motivo de orgulho nacional e enxerga na ofensiva do Ocidente para barrá-lo, com sanções e ameaças de uma ação militar por Israel, uma tentativa de impedir o país de se desenvolver.

Pesquisa do instituto Gallup, conduzida com iranianos ao longo do ano passado, aponta que apenas 17% deles não querem a continuidade do programa nuclear e 63% defendem o avanço da iniciativa, apesar das crescentes sanções do Ocidente. Isso coloca do mesmo lado jovens - entre eles, muitos dos integrantes do movimento verde que ganhou as ruas em 2009 -, reformistas e conservadores.

Jalili traz a perspectiva de uma liderança mais consolidada, capaz de obter consenso interno em uma sociedade cada vez mais polarizada. "Ele é a versão 2.0 de Ahmadinejad: de uma nova geração de linhas dura 100% comprometidos com os ideais da revolução. E, principalmente, desde 2009, o líder supremo tem consciência de que precisa renovar a liderança do regime", diz Suzanne.

Dos 55 milhões de eleitores iranianos, um terço tem menos de 30 anos. Jalili tem se esforçado para se comunicar com eles. Apesar de o regime perseguir blogueiros e tentar bloquear redes sociais, o conservador costuma tuitar em persa e em inglês, mantém um site de campanha e contas no Facebook, Google Plus e Instagram.

Jalili, no entanto, terá de vencer candidatos como o atual prefeito de Teerã, Mohamed Bagher Qalibaf, e o ex-chanceler Ali Akbar Velayati, populares entre conservadores, e convencer os eleitores de que tem capacidade para lidar com problemas internos.

"Desqualificar os mais experientes e conhecidos (como o ex-presidente Rafsanjani) para destacar Jalili foi uma decisão política. Mas apostar em um candidato sem experiência em assuntos domésticos quando o principal tema para os iranianos é a economia, afetada pelas sanções, é arriscado", afirma Farideh Farhi, especialista em Irã.

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