Toru Hanai/Reuters
Toru Hanai/Reuters

Execuções do EI incentivam reforma de Carta japonesa

Premiê quer mudanças na Constituição pacifista para permitir que país vá à guerra em casos de ameaças ou ataques a aliados

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2015 | 09h00

SÃO PAULO - A execução dos dois reféns japoneses pelo Estado Islâmico (EI) fez aumentar a aceitação pública às políticas do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, para fortalecer a defesa do país. Por outro lado, a oposição o acusa de ter despertado a ira dos extremistas quando anunciou, antes das mortes, o envio de US$ 200 milhões em ajuda humanitária aos países que combatem o grupo no Iraque e na Síria. A quantia foi a mesma pedida como resgate pelo EI.

Segundo a Constituição japonesa - escrita pelas forças de ocupação americanas após a 2.ª Guerra - o papel das Forças Armadas é estritamente de autodefesa. O artigo 9, especificamente, proíbe a guerra.

Desde que chegou ao poder, em 2012, Abe tem avançado em seus esforços por uma reforma da Carta a fim de obter uma defesa mais "normal" e menos dependente da proteção americana, como explicou o ex-oficial de relacionamento da Marinha americana para as Forças Terrestres de Autodefesa do Japão Graham Newsham, em entrevista ao Estado.

Segundo ele, a opinião pública do Japão aceita cada vez mais a ideia de o país exercer seu direito à "autodefesa coletiva", uma proposta apresentada pelo premiê que deverá ser aprovada este ano. Trata-se de uma reinterpretação da Constituição japonesa para que o país possa aumentar sua cooperação de segurança com nações aliadas.

Abe tem conseguido outras vitórias políticas na área, como o aumento da capacidade das Forças de Autodefesa (JSDF, na sigla em inglês), a manutenção de gastos militares e incremento de parcerias militares com países da região e europeus. "São grandes conquistas, se considerarmos o estado da defesa nacional do Japão cinco anos atrás", ponderou Newsham, hoje pesquisador sênior do Fórum Japão para Estudos Estratégicos, em Tóquio.

Até o assassinato dos reféns Kenji Goto e Haruna Yukawa na Síria pelos extremistas islâmicos, os esforços de Abe vinham se concentrando em conter o avanço da presença militar chinesa na região Ásia-Pacífico, com um grau bem mais modesto fora dali.

As mortes, no entanto, ajudaram Abe a conseguir apoio para planos de maior alcance, como permissões para enviar soldados em missões internacionais, avaliou Newsham.

Um desses planos é remoldar a aliança entre Japão e EUA, que, segundo o especialista esteve "perigosamente desiquilibrada" há alguns anos. "Os EUA forneciam o grosso da defesa enquanto o Japão fazia apenas uma singela contribuição. Isso não era politicamente sustentável em Washington."

Outro aspecto é quanto à realização de operações militares no exterior para resgatar cidadãos japoneses, como defendeu Abe, na terça-feira, no Parlamento. Esse ponto, porém, é criticado por vários analistas, já que outras nações, até mesmo os EUA, a maior potência militar, não foram capazes de salvar seus cidadãos das garras do EI.

"Se o Japão tivesse qualquer condição de mandar uma equipe para resgatar os reféns na Síria, os parlamentares teriam encontrado uma justificativa. No entanto, o país tem capacidade zero para esse tipo de missão."

A visita ao Parlamento também rendeu críticas ao premiê. A oposição questionou os motivos de ter anunciado ajuda humanitária para os países que combatem o EI mesmo sabendo que o grupo mantinha dois reféns japoneses.

O deputado comunista Akira Koike disse que Abe tinha "alguma responsabilidade" pelas mortes. "Sua pergunta faz parecer que não podemos criticar terroristas", respondeu Abe.

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