Execuções preocupam CNT e ameaçam governo de união

Aliados da Otan condicionam liberação da ajuda ao fim da violência, que aumenta risco de [br]instabilidade na Líbia

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

TRÍPOLI

O brutal massacre de cerca de 150 supostos dissidentes do regime de Muamar Kadafi no bairro de Salaheddine, na periferia de Trípoli, acendeu no fim de semana o sinal de alerta dentro e fora da Líbia. Funcionários da Otan e membros do próprio Conselho Nacional Transitório (CNT) reconheceram que uma onda de vingança está em curso no país após seis meses de conflitos e há risco de que as execuções, cometidas por kadafistas e rebeldes, inviabilize um governo de união nacional.

No sábado, um dos imãs mais influentes do país, o xeque Wanis Mabrouk, célebre pelos discursos inflamados contra o regime, pediu sangue frio aos rebeldes. "Essa revolução foi a da liberdade e do Islã. A revanche não deve ter espaço", afirmou.

Moustapha Abdel-Jalil, um dos líderes do CNT, admitiu preocupação com "certos atos de alguns dos chefes revolucionários", referindo-se aos atos de vingança. Na semana passada, ele já havia afirmado que as matanças podem levá-lo a abandonar o cargo. "Isso poderia ser a razão de minha demissão", disse.

Alertas sobre a explosão de atos de vingança na Líbia também foram feitos no fim de semana pelos principais países aliados do CNT. De Washington, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, classificou o momento de "crítico" e afirmou que os líderes rebeldes devem ser firmes contra a "violência". "Na nova Líbia, não pode haver espaço para a vingança e as represálias", disse.

Na Europa, a chefe da diplomacia da UE, Catherine Ashton, repetiu o discurso de Hillary, enquanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, advertiu para a urgência de restabelecer a ordem e a estabilidade.

Massacre. Para pressionar os rebeldes, os países aliados condicionaram a ajuda financeira para a reconstrução da Líbia, que será definida na Conferência de Paris, no dia 10 de setembro, ao fim dos atos de vingança.

Em Khilit al-Ferjan, em Salaheddine, base da 32.ª Brigada da Líbia, liderada por Khamis Kadafi, filho do ditador, forças leais ao governo teriam metralhado opositores e incendiado seus corpos na noite de terça-feira, de acordo com testemunhas ouvidas pelo Estado.

Os prisioneiros foram mantidos enclausurados em um galpão de zinco ao longo de dez dias. Na terça-feira, oficiais do Exército e mercenários abriram a porta do galpão e anunciaram que os detidos seriam libertados. Minutos depois, no entanto, voltaram e os executaram. "Eu sentia os tiros de metralhadora atingindo os corpos que estavam sobre mim", disse Taha Gazi, 30 anos, um dos sobreviventes.

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