REUTERS/Philippe Wojazer
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Exercício de sobrevivência

Quando, aos 20 anos, Jorge Semprún decidiu aderir a um dos grupos da Resistência Francesa contra o nazismo, o chefe da Jean-Marie Action, a rede na qual ingressaria, o alertou: “Antes de aderir, precisa saber a que riscos você estará sujeito”. E o apresentou a “Tancredo”, um sobrevivente das torturas às quais a Gestapo submetia os combatentes do “maquis” que capturava. Semprún sofreria as atrocidades que descreveu, dois anos mais tarde, quando, por causa da delação de um infiltrado, caiu numa emboscada preparada pelos nazistas na fazenda de Joigny, onde se escondia.

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2015 | 03h00

O pesadelo transformou-se em realidade. A imersão nas águas geladas de uma banheira repleta de lixo e excrementos, a privação do sono, as unhas arrancadas, o estalar de todos os ossos ao ser atirado do telhado com os pés amarrados às mãos, os choques elétricos e as surras selvagens nas quais o desmaio representava uma libertação.

Jamais, antes de escrever esse livro publicado postumamente na França – Exercices de Survie –, Semprún havia falado em primeira pessoa da tortura, o horror extremo a que pode ser submetido um ser humano do qual os algozes não só tentam arrancar a informação, mas que também querem humilhar, tornar indigno e traidor dos irmãos de luta.

Embora, no entanto, nunca a tivesse mencionado a seu respeito, a experiência o acompanhou como uma sombra e supurou sua memória durante todos os anos de sua juventude e maturidade na Resistência e em suas periódicas visitas clandestinas à Espanha como enviado do Partido Comunista para lançar uma ponte entre os dirigentes no exílio e os militantes do interior.

Nesse livro inacabado, um simples esboço – e, entretanto, lúcido e comovente –, Semprún revela que a tortura – a lembrança das que sofreu e a perspectiva de voltar a suportá-las– foi sua mais íntima companheira entre seus vinte e quarenta anos. Ele a descreve como o apogeu da ignomínia que pode exercer a besta humana convertida em algoz e como a prova decisiva para, superando o espanto e a dor, alcançar as mais altos valores da dignidade e da decência.

Em suas reflexões sobre o significado da tortura não há autocomiseração ou arrogância, mas um pensamento que vai além do superficial e chega ao fundo da condição humana. Em Buchenwald, seu chefe do “maquis” o felicitou por não ter delatado ninguém durante os suplícios – “Nem foi preciso mudar os esconderijos e as senhas”, disse–e o comentário de Semprún não pode ser mais parco: “Me alegra ouvir isso”. Em seguida, explica que a resistência à tortura é “uma vontade inumana, sobre-humana, de superar o padecimento, da busca de uma transcendência” que encontra sua razão no descobrimento da fraternidade.

Um ser humano, submetido à dor, pode ceder e falar. Mas também pode resistir, aceitando que a única saída desse sofrimento selvagem é a morte.

É o momento decisivo no qual o farrapo ensanguentado derrota o torturador, aniquilando-o moralmente, embora esse acabe convertendo-o em cadáver e em seguida vá tomar um trago. Nessa vitória silenciosa e atroz, o humano se impõe ao desumano, a razão ao instinto bestial, a civilização à barbárie– por existirem seres assim no mundo, é algo ainda possível.

Acertadamente, Régis Debray, autor da apresentação de Exercices de Survie, compara Jorge Semprún a André Malraux, que também padeceu as torturas dos nazistas sem falar seus algozes não sabiam quem era a pessoa que torturavam – e, como aquele, foi capaz de transformar “a experiência em consciência”. Foi igualmente o caso, na Espanha, de George Orwell, quase assassinado pelos próprios companheiros pelos quais fora à Espanha lutar, e de Arthur Koestler, esperando em uma cela em Sevilha a ordem de fuzilamento expedida pelo general Queipo de Llano.

São eles, e os milhares de seres anônimos que, em circunstâncias parecidas, agiram com a mesma coragem, os verdadeiros heróis da história, com mais pertinência que os heróis épicos, vencedores ou perdedores de grandes batalhas, vistosas como as superproduções cinematográficas. Eles não têm monumentos e, em sua grande maioria, sequer são lembrados ou mesmo conhecidos, porque agiram no mais absoluto anonimato. Não era seu intento salvar uma nação ou  uma ideologia. Só que não foi a força bruta, mas sim o espírito racional e o sentimento o que prevaleceu nesse mundo sobre o preconceito racial e a intolerância criminosa diante do adversário político, a civilização criada com enormes esforços para arrancar os seres humanos do estado bestial e organizar suas sociedades a partir de valores que permitam a coexistência na diversidade e permitam reduzir – já que erradicá-la totalmente é impossível – a violência nas relações humanas.

Jorge Semprún foi um desses heróis discretos graças aos quais o mundo em que vivemos não está pior do que é – e sempre resta uma margem de esperança. Nascido numa família abastada, escolheu desde muito jovem, sacrificando sua vocação pela filosofia, militar no Partido Comunista e desaparecer na clandestinidade usando pseudônimos, lutando contra o nazismo e o franquismo, padecendo por isso o inferno da tortura, do campo de concentração, muitos anos de clandestinidade que o obrigaram a viver desafiando diariamente longas penas no cárcere ou uma morte horrível.

E tudo isso para quê? Para descobrir, ao entrar na etapa final de sua existência, que o ideal comunista ao qual havia dado tanto, estava corrompido até à medula e que, se triunfasse, teria talvez criado um mundo ainda mais discriminatório e injusto do que aquele que ele pretendia destruir.

Alguns ex-comunistas se mataram e outros ruminaram sua frustração na neurose ou num lancinante silêncio. Jorge Semprún, não. Ele continuou lutando, procurando explicar o que compreendeu no final em livros que são testemunhos extraordinários de como a verdade pode ser fugidia e de quão frequentemente ela e a mentira se mesclam de tal maneira que parece impossível identificá-las. Sem jamais cair no pessimismo, encontrando razões suficientes para continuar militando em busca de um mundo melhor, ou, pelo menos, mais tolerável, com menos injustiças e menos violências, e mostrando que sempre é possível resistir, corrigir, reiniciar essa guerra na qual só podemos contemplar vitórias momentâneas, porque, como diz Borges no poema aos seu bisavô que lutou em Junin, “a batalha é eterna e pode prescindir da pompa, de visíveis exércitos com clarins”.

Embora o último livro de Semprún evoque o mais espantoso dos temas - a tortura -, terminamos de lê-lo sem cair na desesperança, porque, além da brutalidade e da maldade demoníacas, há em suas páginas, rechaçando-as, idealismo, generosidade, valentia, convicção moral e razões sólidas para sobreviver. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ESCRITOR PERUANO E PRÊMIO NOBEL

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