Gleb Garanich/Reuters
Gleb Garanich/Reuters

Exército adverte presidente da Ucrânia para pôr fim a protestos de rua no país

Parlamento aprovou projeto de lei enviado por Viktor Yanukovich para que opositores para que deixem praças e prédios públicos

Andrei Netto - Enviado especial de O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2014 | 02h06

As Forças Armadas da Ucrânia advertiram ontem o presidente do país, Viktor Yanukovich, em licença médica desde a véspera, para que adote "medidas de urgência" para esvaziar protestos que se acentuaram em praças e prédios públicos de cidades como a capital, Kiev, nos últimos dez dias.

Em comunicado divulgado pelo Ministério da Defesa, os militares alertaram para o risco "à integridade territorial" do país caso a contestação persista. Em paralelo, o Parlamento aprovou ontem a suspensão por 15 dias das leis repressivas recém-impostas, que inflamaram a crise iniciada há 71 dias.

A nota tem tom inverso ao discurso mantido até aqui pelos militares, que desde 12 de dezembro vinham afirmando que não interfeririam nos protestos. A carta, dirigida "ao chefe supremo das Forças Armadas", ou seja, ao presidente Yanukovich, pede medidas urgentes para "estabilizar o país". "Militares e empregados do Ministério da Defesa julgam inaceitáveis a tomada de assalto de prédios públicos e as tentativas de impedir que o poder exerça suas funções, notando que a escalada da contestação ameaça a integridade territorial", diz o texto.

O documento não faz alusão a medidas específicas que são esperadas de Yanukovich, mas ontem a apreensão cresceu em Kiev por temores de que o país possa estar caminhando na direção de um golpe.

Os boatos foram reforçados por um outro comunicado governamental, assinado na véspera pelo coordenador-adjunto de Problemas Médicos do Departamento de Estado, Oleksandr Orda, informando que o presidente se afastaria de várias funções do governo em razão de "doença respiratória e febre". A suposta doença de Yanukovich levou o boxeador Vitali Klitschko, um dos líderes da oposição, a afirmar na quinta-feira que teme a adoção de novas "medidas impopulares".

Na terça-feira, o premiê ucraniano, Mykola Azarov, já havia renunciado, derrubando todo o gabinete responsável pela adoção do pacote de leis repressivas que reacenderam as manifestações, causando choques entre a polícia e os manifestantes no dia 22. Desde o início dos protestos, pelo menos 5 pessoas morreram. Ontem o Parlamento aprovou uma lei concedendo 15 dias de anistia aos manifestantes, prazo para que eles liberem prédios e praças pública que vêm sendo ocupadas.

O clima de insegurança também foi agravado pela reaparição de Dmytro Bulatov, militante que havia sido declarado desaparecido no dia 22. Ontem, o oposicionista apareceu muito ensanguentado e se dizendo vítima de sequestro e tortura. "Crucificaram-me, cortaram minha orelha, talharam meu rosto e me espancaram", disse à rede de TV Kanal 5, acusando um grupo de homens com "sotaque russo" de serem responsáveis pela agressão. "Graças a Deus eu estou vivo."

Na Praça da Independência, em Kiev, epicentro dos protestos e onde ontem alguns milhares de pessoas mantiveram a mobilização em acampamentos e barricadas, mesmo sob a sensação térmica de -22ºC, não é difícil encontrar manifestantes que denunciam sequestros e sessões de espancamentos. "Todo mundo conhece alguém que já foi vítima de espancamentos brutais por parte da política ou de milícias", disse ao Estado a estudante Evgenia N., de 23 anos, que acampa há quatro dias na capital.

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