Exército britânico abandona papel de polícia na Irlanda do Norte

As torres de observação do Exército são coisa do passado e os soldados britânicos não vasculham mais as casas das pessoas à procura de suspeitos, mas, para muitos moradores das cidades da fronteira da Irlanda do Norte com a Irlanda, o conflito continua vivo em suas mentes. Na terça-feira, o Exército britânico deixará de participar, como vem fazendo há 38 anos, das ações de polícia na Irlanda do Norte, colocando fim a sua mais duradoura operação militar. Em Crossmaglen, um bastião de nacionalistas irlandeses na Província dominada pela Grã-Bretanha e que desejavam unir-se à Irlanda, há pessoas que ainda digerem o legado dos violentos confrontos entre republicanos armados e as forças britânicas. "O Exército britânico realizou uma guerra nessa área e o povo se viu na mira das armas", disse Terry Hearty, conselheiro local do Sinn Fein, um aliado político do grupo guerrilheiro Exército Republicano Irlandês (IRA). Os soldados britânicos chegaram à Irlanda do Norte em 1969 a fim de reprimir os conflitos surgidos entre a população majoritariamente protestante da região -- que deseja manter a Irlanda do Norte sob o domínio da Grã-Bretanha -- e os católicos. Cerca de 3.600 pessoas foram mortas nas três décadas seguintes. A violência, no entanto, desapareceu quase por completo em 1997, quando o IRA declarou um cessar-fogo. Em maio de 2007, católicos e protestantes refundaram um governo de coalizão na Irlanda do Norte. O passado de conflitos, porém, não se apagou. Muitas das casas localizadas perto da República da Irlanda exibem a bandeira tricolor desse país e monumentos honram a Brigada Armagh do Sul, uma das unidades mais violentas do IRA. O final das operações militares significa que o Exército britânico manterá na região agora apenas uma "guarnição de tempos de paz". O contingente de soldados na área, que chegou ao ápice de 27 mil em 1972, não somará mais de 5.000 homens agora. Mas, para pessoas como Maria Caraher, 38 anos, cujo pai foi morto por soldados britânicos em uma situação ainda não esclarecida, deixar o passado para trás não será fácil. "O que aconteceu ficará conosco pelo resto de nossas vidas", afirmou.

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