Exército chinês desfecha ataques cibernéticos contra países ocidentais

Chancelaria britânica é novo alvo de ofensiva que já danificou rede de computadores do Pentágono e do governo alemão

The Guardian, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2006 | 00h00

Londres - Depois de atacarem redes de computadores dos governos da Alemanha e dos EUA, hackers chineses provavelmente ligados ao Exército de Libertação do Povo (ELP) também invadiram o sistema da chancelaria britânica e de outros órgãos do governo de Londres. A informação foi divulgada ontem pelo jornal The Guardian, citando autoridades britânicas. O Ministério da Defesa não quis dizer se também foi alvo dos piratas. O deputado trabalhista Andrew MacKinlay acusou o governo de tentar ocultar a extensão dos ataques.Os ataques cibernéticos chineses contra governos ocidentais vieram à tona em junho, quando a imprensa noticiou uma invasão da rede de computadores do Pentágono. Segundo o Financial Times, autoridades dos EUA disseram, na ocasião, que esse havia sido o mais bem-sucedido ataque contra o sistema do Departamento de Defesa americano.Funcionários do Pentágono confirmaram que houve uma "infiltração detectada" no sistema de e-mail usado pelo gabinete do secretário da Defesa, Robert Gates. O último ataque causou apenas pequenos problemas administrativos. Uma investigação concluiu que o responsável era o Exército de Libertação do Povo. A suspeita, porém, era antiga. Alex Neil, especialista em China e chefe do Programa sobre Segurança na Ásia do Royal United Services Institute, em Londres, disse que os ataques cibernéticos chineses vêm ocorrendo há pelo menos quatro anos. E descreveu a investida contra o Pentágono como "a mais flagrante e descarada até agora" (ler mais abaixo).Esses ataques refletem uma nova doutrina do ELP, descrita como "guerra de pressão direcionada" - ou seja, ataques a pontos específicos para deixar o adversário paralisado. O Exército chinês vem investindo na formação de especialistas e na criação de uma doutrina militar para o ciberespaço como forma de contrabalançar o maior poderio bélico dos EUA.A chanceler alemã, Angela Merkel, cujo governo também foi alvo de hackers chineses, abordou esse assunto durante visita a Pequim no fim de agosto. Segundo a revista Der Spiegel, foram encontrados em maio softwares de espionagem chineses nas redes dos Ministérios de Relações Exteriores e de Economia e até no gabinete de Merkel. MANOBRA POLÍTICAAs autoridades britânicas não quiseram dizer se o governo também discutiu o problema com autoridades chinesas. Acreditava-se, de início, que um incidente ocorrido no ano passado - que paralisou parte do sistema de computadores da Câmara dos Comuns - tinha sido provocado por uma só pessoa. No entanto, mais tarde, descobriu-se que um grupo organizado de hackers chineses foi o responsável. Funcionários de alto escalão do setor britânico de defesa não quiseram dar detalhes sobre os ataques. Mas disseram que vários órgãos do governo foram vítimas dos piratas cibernéticos da China. Um especialista assinalou que tais ataques se tornaram um "problema constante". Segundo Neill, esses incidentes devem ser vistos tendo como pano de fundo do 17º Congresso do Partido Comunista chinês, que será realizado em 15 de outubro e poderá determinar a próxima geração de líderes da China. O ELP estaria manobrando para garantir que seu grande poder não seja ameaçado. Se o Exército mostrar que os bilhões de yuans investidos numa moderna força informatizada foram muito bem aplicados, esse poderia ser um golpe de mestre.

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