Exército da Venezuela repudia apelo à desobediência

O Exército venezuelano emitiu uma nota oficial repudiando o chamado à desobediência feito ontem por um grupo de altos oficiais que se declarou em rebelião e exigiu a renúncia do presidente Hugo Chávez."A instituição militar venezuelana não pode ser minada nem confundida pelos desesperados chamados à quebra da norma constitucional, muito menos quando são realizados por companheiros de armas que se desviaram do respeito a essa norma e não encontram eco em nossa instituição", diz o comunicado, firmado pelo comandante-geral do Exército, general Julio José García Montoya. "Os homens e mulheres em armas temos como norte, objetivo e motivação essenciais a defesa da soberania e os valores da Constituição."Pouco mais de 500 civis permaneciam hoje na Praça Francia, em Altamira (leste de Caracas), depois de terem sido convocadas para aderir ao movimento de desobediência convocado pelos 15 oficiais insurgentes - que não comandam tropa e estão sendo processados pela tentativa de golpe de abril. O grupo, no entanto, parecia isolado, sem conseguir apoio significativo dos quartéis.O grupo rebelde leu, na terça-feira, um pronunciamento transmitido por todas as emissoras de TV privadas do país, conclamando os comandantes militares e a população civil a desconhecer a autoridade de Chávez. O comunicado foi lido pelo general do Exército Enrique Medina Gómez. Os insurgentes declararam a Praça Francia "território livre das forças institucionais" e base do movimento pela deposição do presidente.Para isso, invocaram um artigo da Constituição venezuelana, o 350, de acordo com o qual a população tem direito a desconhecer "qualquer regime, legislação ou autoridade que contrarie os valores, princípios e garantias democráticas ou viole direitos humanos"."Se se amparam nesse argumento, estão fazendo uma interpretação muito equivocada desse artigo", declarou o vice-presidente José Vicente Rangel, que qualificou a ação dos rebeldes de "ridícula" e "uma palhaçada".Rangel reiterou que o país amanheceu hoje em clima de absoluta tranqüilidade e "num estado de total normalidade em todas as guarnições militares". Reafirmou ainda que o governo não pretende reprimir os civis concentrados na praça, mas não descartou a possibilidade de que "sejam adotadas medidas contra os oficiais nas próximas horas".Um dos oficiais rebeldes, o general Néstor González González, declarou hoje que o grupo permanecerá na praça "indefinidamente". "Se o povo venezuelano nos acompanha, nós estaremos aqui. Nossa intenção não é a violência, nem isto é um golpe militar."O secretário-geral da Organização do Estados Americanos (OEA), o colombiano César Gaviria, porém, disse que o movimento "quebra a lealdade constitucional que os militares devem ao presidente da República e viola a Carta Democrática da OEA".Chávez, por sua vez, ordenou hoje o reforço do contingente da Guarda Nacional no Palácio Miraflores, sede da presidência. Gaviria anunciou que se reunirá com o presidente venezuelano na segunda-feira, em Caracas.GolpeO ex-chanceler acusado de tramar o complô para a derrubada do presidente da Venezuela afirmou que um "destacado general" e "civis muito ricos" planejam depor Hugo Chávez. Enrique Tejera París, que foi acusado pelo presidente Hugo Chávez de dirigir o golpe de abril, em uma entrevista divulgada nesta quarta-feira pelo jornal editado em inglês The Daily Journal de Caracas, disse também que a maioria dos militares venezuelanos teme o golpe e a violência que esta ação poderia provocar. "Há uma agenda para promover um golpe militar, à qual me oponho totalmente", disse Tejera, de 83 anos. "O chefe do plano golpista era, até algumas semanas atrás, um general de muito destaque, em associação com alguns civis muito ricos". "Eles desejam permanecer no poder por cerca de três anos e meio", comentou o ex-chanceler, acrescentando que ele próprio rejeitou um convite para integrar uma junta de governo após a saída de Chávez. Tejera se recusou a identificar os conspiradores.

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