Exército deixa de ser herói e vira vilão da revolução

Em cada país envolvido na Primavera Árabe, as Forças Armadas têm tido um papel distinto. No Egito, ele mudou radicalmente ao longo do ano. De herói das manifestações, o Exército transformou-se em vilão no segundo tempo da revolução, que coincide com as eleições parlamentares.

Cenário: Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h04

A revolta no Egito não foi provocada pela da Tunísia. Antes de o vendedor de frutas tunisiano Mohamed Bouazizi imolar-se, em 17 de dezembro, uma manifestação já havia sido marcada no Cairo no dia 25 de janeiro, por um movimento que nasceu no Facebook com a morte, em junho, de Khaled Said, de 28 anos, espancado por policiais numa lan house. A data escolhida era o Dia da Polícia, odiada por sua brutalidade e corrupção. A rebelião na Tunísia serviu apenas de combustível.

Quando as centenas de manifestantes convergiram para a Praça Tahrir e se transformaram em milhares, a polícia não conseguiu dispersá-los. O então presidente Hosni Mubarak ordenou que o Exército apoiasse a polícia. Mas o marechal Mohamed Tantawi, ministro da Defesa, assim como os comandantes militares, recusaram-se a "massacrar o próprio povo". Protegeram os manifestantes. A polícia desapareceu. A perda do apoio do Exército selou o destino de Mubarak, que renunciou em 11 de fevereiro. Assim, a junta militar formada para conduzir a transição foi bem aceita.

A Irmandade Muçulmana, reprimida havia décadas, aproximou-se dos militares, com benefício mútuo para ambos, emprestando um ao outro prestígio e popularidade das respectivas bases. Partidos seculares e grupos liberais surgidos na Praça Tahrir também chegaram a ver momentaneamente os militares como possível barreira de contenção dos islâmicos e guardiães do Estado laico, como ocorrera na Turquia após o Império Otomano.

Conforme os meses passaram, evidenciou-se a diferença de interesses entre militares de um lado, e civis seculares e islâmicos, de outro. A junta militar protelou as eleições e não transferiu poder para o gabinete civil de transição, por ela nomeado. Logo ficou claro que as Forças Armadas trabalhavam para salvaguardar seus poderes. O estopim da nova revolta foi um esboço de Constituição, segundo o qual os militares aprovariam 80 dos 100 constituintes escolhidos pelo Parlamento eleito e teriam poder de veto sobre o texto.

Foi isso que levou a Irmandade Muçulmana a organizar a manifestação de 18 de novembro, que desencadeou a segunda fase da revolução. No dia seguinte, a polícia queimou uma dúzia de tendas deixadas pelos manifestantes na Praça Tahrir. Temerosa de um cancelamento das eleições, na qual era favorita, a Irmandade recolheu-se. Pressionados, os militares prometeram eleição presidencial para até o fim de junho do ano que vem.

A disputa de poder no Egito ganhou duas dinâmicas. De um lado, há o embate entre civis e militares; de outro, entre seculares e religiosos. Não é uma acomodação simples. Nas filas de votação, os eleitores sublinharam que queriam conciliar a liberdade recém-conquistada com a estabilidade do tempo de Mubarak. Os egípcios são conhecidos por sua paciência. Agora mais do que nunca vão precisar dela. / Lourival Santanna cobriu a revolução do início do ano, o referendo de março, a primeira fase das eleições no Egito. Também passou 8 semanas cobrindo a guerra civil na Líbia.

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