Exército do Egito dá ultimato a facções para encerrarem crise

Generais alertam que 'não permitirão' mais a atual disputa política e diálogo entre governo e oposição é 'única solução'

CAIRO, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h03

O Exército do Egito rompeu ontem o silêncio, após duas semanas de grandes protestos, e alertou para as "consequências desastrosas" da atual crise política no Cairo. Os generais avisaram que "não permitirão" que o impasse se estenda e o diálogo entre o governo da Irmandade Muçulmana e opositores, de grupos laicos e cristãos, é "a melhor e única saída".

"Qualquer outro caminho que não seja o do diálogo nos forçará a entrar em um túnel escuro com consequências desastrosas - algo que nós não permitiremos", afirmou a cúpula das Forças Armadas por meio de nota lida na TV estatal por um oficial não identificado. O fracasso em chegar a um acordo "não é do interesse de nenhum dos lados", continua o texto. "E toda a nação pagará o preço (do fracasso)."

Os militares, que estiveram no poder durante os regimes de Anwar Sadat e Hosni Mubarak, continuaram a dar as cartas no Cairo após a queda do ditador, em fevereiro de 2011. Com a eleição do presidente Mohamed Morsi, em junho, o poder passou às mãos dos civis, mas as Forças Armadas continuam a ser ator decisivo na política egípcia - sobretudo contra as investidas da Irmandade Muçulmana para ampliar seu poder.

Espiral de crise. A temperatura política no Cairo vem subindo nas últimas semanas, depois que o presidente, no dia 23, editou decretos que o tornam virtualmente imune ao Judiciário e blindam a Assembleia Constituinte da ação dos juízes.

Morsi afirma que as medidas são temporárias e buscam proteger a "revolução" de forças aliadas a Mubarak que ainda dominam a Justiça. Para a oposição, o presidente está tentando - e conseguindo - consolidar a hegemonia de sua facção islâmica sobre o novo Egito, contra grupos laicos e minorias.

Na semana passada, sob boicote de partidos laicos, de esquerda e cristãos, deputados constituintes aprovaram ao longo da madrugada o texto final da nova Constituição. O documento deveria ir a referendo no dia 15.

Segundo a oposição, a Carta foi elaborada apenas pelos grupos islâmicos e dá peso inédito à sharia (lei religiosa), em detrimento de direitos básicos de proteção das mulheres, liberdade de expressão e crença.

Na quinta-feira, as Nações Unidas também criticaram a nova Constituição. A comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay, condenou a forma como o governo egípcio blindou a Assembleia Constituinte, qualificando a preparação da nova Constituição egípcia de "desastrosa". Para a ONU, artigos da Carta contêm "omissões e ambiguidades muito preocupantes". O texto teria como função substituir a Constituição de Mubarak, marcando o que seria um fim da era do ex-ditador. / REUTERS

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