Ahmad Al-Rubaye/AFP
Ahmad Al-Rubaye/AFP

Exército do Iraque admite 'uso excessivo da força' em repressão a protestos

Mais de 100 pessoas foram mortas e seis mil ficaram feridas em menos de uma semana; premiê anunciou decreto com 17 medidas sociais para tentar amenizar manifestações

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2019 | 18h04

BAGDÁ - O exército do Iraque reconheceu nesta segunda-feira, 7, pela primeira vez, que fez uso excessivo da força durante a onda de protestos que eclodiu na última terça-feira

As manifestações iniciadas em 1º de outubro na capital Bagdá e nas cidades do sul do país para exigir a renúncia do governo, acusado de corrupção, deixaram mais de 100 mortos e mais de 6 mil feridos, de acordo com o último balanço oficial. 

O presidente iraquiano, Barham Saleh, pediu nesta segunda para "cessar a escalada" após uma semana de violência e disse que deseja "um diálogo nacional sem ingerência estrangeira" para atender às demandas dos manifestantes.

Em um discurso televisionado esta noite, o chefe de Estado considerou que "quem disparou contra os manifestantes pacíficos e as forças de ordem são inimigos do povo" e pediu a aplicação de medidas para evitar "o recurso à força excessiva", que o exército admitiu ter usado em um bairro de Bagdá.

Depois de uma noite caótica no distrito de Sadr City, no subúrbio leste de Bagdá, onde 13 pessoas morreram em confrontos entre manifestantes e forças de segurança, segundo fontes médicas, o comando militar admitiu "uso excessivo da força que excedia os padrões".

"Já estamos pedindo explicações aos policiais que cometeram esses erros", afirma um comunicado.

Vídeos feitos na cidade mostram manifestantes se escondendo sob rajadas ininterruptas de tiros, alguns realizados com armas pesadas. 

Não é fácil para as forças de segurança e a mídia entrarem neste reduto do líder xiita Moqtada Sadr, que, na sexta-feira, pediu a renúncia do governo do primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi.

Desde terça-feira, as autoridades acusam "atiradores não identificados" de disparar contra manifestantes e forças de segurança. Mas os ativistas de direitos humanos acusaram as forças de segurança de abrir fogo indiscriminadamente contra manifestantes.

No domingo, pela primeira vez desde o início do movimento, que também exige mais empregos para os jovens e melhorias nos serviços públicos, os manifestantes não se reuniram no centro de Bagdá. Havia apenas concentrações em Sadr e arredores, na periferia da capital, como no sul do país.

Ainda no domingo, o governo iraquiano anunciou uma série de medidas sociais em resposta às reivindicações dos manifestantes.

Ao fim de um conselho extraordinário, o premiê anunciou um decreto com 17 medidas sociais, que incluem auxílio-moradia, assim como seguro-desemprego para os jovens. Também foi anunciada a construção de 100 mil casas. 

Mahdi ordenou ainda a instalação de vagas para os vendedores ambulantes, em uma tentativa de criar empregos, em especial para os jovens. Hoje, um a cada quatro nesta faixa etária não têm trabalho no Iraque.

As autoridades anunciaram também que vão incluir as pessoas mortas desde terça-feira na lista de "mártires", para que seus familiares possam pedir indenizações por sua perda.

Irã denuncia conspiração

Por sua vez, o Irã, país vizinho e aliado do Iraque, denunciou uma conspiração, em alusão às manifestações espontâneas, que respondem às convocações feitas nas redes sociais. 

O guia supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, acusou os "inimigos" de tentar "semear a discórdia" entre Irã e Iraque.

"Irã e Iraque são duas nações cujo coração e alma estão ligados (...) Os inimigos buscam semear a discórdia, mas fracassaram e seu complô não terá efeito", escreveu Khamenei no Twitter, sem entrar em detalhes sobre a identidade dos "inimigos".

De acordo com a agência de notícias oficial Irna, o tuíte foi publicado como reação às manifestações que acontecem no Iraque, principalmente em Bagdá e no sul do país, de maioria xiita.

Teerã mantém relações próximas com Bagdá desde a queda de Sadam Hussein em 2003, e reforçou sua influência no Iraque apoiando vários partidos e grupos xiitas. / AFP              

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