Exército dos EUA muda estratégia e admite até negociar com Taleban

Prioridade passa a ser melhorar segurança e atacar abrigos do terror, abandonando planos de democratizar país

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

07 de março de 2009 | 00h00

A era de ilusões americanas no Afeganistão acabou. Nas Forças Armadas dos EUA, ninguém mais espera transformar o país em uma terra próspera, a erradicação do cultivo de ópio não está na agenda e os direito das mulheres tampouco. Aliás, negociar diretamente com o Taleban para isolar a Al-Qaeda e outras milícias que dão abrigo a terroristas é uma das estratégias que deve figurar no esperado Relatório Petraeus sobre a guerra no Afeganistão. Na última semana de março, o general David Petraeus, chefe do Comando Central (responsável por Iraque e Afeganistão) deve apresentar ao Congresso americano seu diagnóstico sobre a situação no Afeganistão e sua proposta de uma nova estratégia para a "guerra de Obama". Petraeus idealizou a bem-sucedida estratégia de reforço de tropas e contrainsurgência no Iraque. Por isso, há expectativa de que seu relatório possa ser o mapa para o sucesso, ou ao menos a estabilidade, no Afeganistão."Falar com insurgentes, como fizemos no Iraque, foi muito eficiente, foi uma boa maneira de fazê-los abandonar a luta armada", disse ao Estado o general William Caldwell, comandante do Centro Integrado do Exército, também conhecido como o "centro intelectual do Exército". "Vamos falar com qualquer um que seja relevante no processo, incluindo o Taleban; temos muito cuidado para não fechar nenhuma porta." Segundo fontes, o governo cogita até de recrutar militantes taleban como assalariados, como foi feito com rebeldes no Iraque. Boa parte da estratégia para o Afeganistão vem sendo formulada com ajuda de especialistas de Fort Leavenworth, no Kansas. Caldwell é o sucessor de Petraeus no comando do centro intelectual e é o nome mais cotado para assumir o comando no Afeganistão. No centro, 70% dos cerca de 7 mil alunos de pós-graduação dedicam-se inteiramente ao Afeganistão, enquanto 30% se ocupam do Iraque. Mais de 90% desses majores estarão no front até o final do ano. "Em janeiro de 2008, iniciamos uma escalada das tropas intelectuais para definir estratégias para o Afeganistão", disse Caldwell. "Sabíamos que, independentemente de quem ganhasse a eleição, o Afeganistão seria o foco - estávamos vendo que as coisas no Iraque melhoravam, mas no Afeganistão não iam tão bem."Conversando com o general Caldwell e integrantes do time anti-insurgência do Exército, o Estado teve acesso a alguma das estratégias para o Afeganistão que estão em estudo.O tom é de realismo. "Não vamos conseguir acabar com a discriminação contra mulheres, a burca, o desrespeito aos direitos humanos", diz o tenente-coronel John Malevich, de Fort Leavenworth. "Nossa proposta é tornar o país seguro em muitos lugares, não ter santuários para terroristas e ter um governo viável. Vamos nos livrar do problema do ópio? Eu duvido. O Afeganistão vai ser um país próspero? Eu duvido. Mas pelo menos vai ser melhor."Estudos da RAND Corporation usados pelo Exército mostram que são necessários em média 18 anos para se debelar uma insurgência. Na Irlanda, foram 37 anos. Os EUA estão há oito no Afeganistão.PANO DE FUNDOO cenário é bem mais complexo no Afeganistão, porque há pashtuns, usbeques, tajiques, taleban, membros da Al-Qaeda, líderes do tráfico de drogas, facções tribais inimigas entre si, e - ainda - agentes do serviço de inteligência do Paquistão (ISI), que se infiltram no Afeganistão para neutralizar a influência da Índia. "Há um pano de fundo de violência constante no Afeganistão", diz Malevich."A população precisa de alguém que estabeleça a segurança e a ordem. Se não, ela vai se apoiar no mafioso local", explica o major Niel Smith. A população não gosta do Taleban, não tem afinidade ideológica. "Mas eles dão segurança, em meio ao caos e corrupção do governo de Cabul, por isso a população os apoia."O Exército admite que muitas de suas políticas não funcionam. Aproximar-se dos líderes locais por meio do governo central afegão, corrupto e fraco, não surtiu efeitos. Também admite que os 17 mil soldados que os EUA enviarão ao país, para se juntarem aos 38 mil que já estão lá, não serão suficientes para garantir a segurança.Num gesto audacioso, os EUA convidaram o Irã para participar de uma conferência sobre o Afeganistão, que se realizará antes da reunião da Otan em Estrasburgo, nos dias 3 e 4 (leia quadro na página 15). Obviamente, o Paquistão, que abriga santuários de terroristas nas áreas sem-lei de fronteira com o Afeganistão, é primordial no processo."Precisamos mudar o tipo de auxílio para a reconstrução e o desenvolvimento. Isso não está nas prioridades certas, as agências não se entendem", diz Barmak Pazhwak, diretor do programa de Afeganistão no Instituto dos EUA para a Paz. "Não adianta gastar recursos para reconstruir escolas se não há professores e os alunos não aparecem porque não há segurança", diz Pazhwak.

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