Exército egípcio amplia toque de recolher

Extensão foi anunciada horas depois de renúncia formal do gabinete do governo de Mubarak

BBC

29 de janeiro de 2011 | 12h00

 

CAIRO - O Exército do Egito anunciou a extensão do toque de recolher no país neste sábado, 29. A medida agora começa às 16 horas (10 horas em Brasília) até as 8 horas da manhã seguinte na capital, Cairo, e nas cidades de Alexandria e Suez.

Neste sábado milhares de manifestantes se reuniram no centro do Cairo e ocorreram confrontos com as forças de segurança. Alexandria também teve protestos.

Os manifestantes voltaram às ruas pelo quinto dia consecutivo pedindo a renúncia do presidente egípcio, Hosni Mubarak.

A extensão do toque de recolher foi anunciada logo depois da renúncia do gabinete de governo. A renúncia formal foi apresentada neste sábado e há informações de que o atual ministro do Investimento, Comércio e Indústria, Racheed Mohamad Racheed, poderá ser nomeado o novo primeiro-ministro do Egito.

Na noite de sexta-feira, Mubarak fez o primeiro pronunciamento desde o início da onda de manifestações. No discurso transmitido pela televisão, Mubarak anunciou a dissolução do governo.

Um novo premiê já foi anunciado. O ex-comandante das Forças Armadas Ahmed Shafik é o novo ocupante do cargo e foi incumbido por Mubarak de formar o novo governo.

Tanques e blindados

Segundo fontes médicas, ao menos 13 pessoas morreram em Suez e cinco morreram no Cairo em confrontos na sexta-feira, o que eleva para 26 o total de mortes ocorridas desde que os protestos se iniciaram, na terça-feira.

Os tanques e veículos blindados estão nas ruas do Cairo neste sábado, em locais onde ocorreram incêndios e choques entre manifestantes e forças de segurança nos dias de protestos.

A praça Tahrir é o principal centro de protestos contra o presidente Mubarak. Os serviços de telefonia celular foram retomados na capital egípcia, mas a internet continua bloqueada.

Em Suez, os soldados estão nas ruas depois que a polícia e autoridades da cidade fugiram da violência dos protestos da sexta-feira. A principal delegacia de polícia da cidade foi incendiada.

Há informações de que em Alexandria, no norte do Egito, milhares de manifestantes estão nas ruas e confrontos estão ocorrendo na cidade.

Outros relatos dão conta de que o líder da oposição e Nobel da Paz Mohamed ElBaradei estaria sendo mantido em prisão domiciliar, mas a versão não foi confirmada oficialmente.

ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), chegou ao Cairo na quinta-feira para se juntar às manifestações.

 

Novo governo

No primeiro pronunciamento desde o início da onda de manifestações, o presidente, Hosni Mubarak, anunciou na sexta-feira a dissolução do governo. Mubarak deve nomear o novo gabinete ainda neste sábado.

Em discurso transmitido pela TV estatal, Mubarak, que está no poder desde 1981, disse ainda que os protestos não estariam ocorrendo caso seu governo não tivesse introduzido liberdades civis e de imprensa no país.

Ele defendeu a atuação das forças de segurança na repressão das manifestações e afirmou que não permitiria que o Egito, país tão importante para o norte da África e o Oriente Médio, seja desestabilizado.

O discurso de Mubarak ocorreu enquanto milhares de manifestantes desafiavam um toque de recolher imposto no país nesta sexta-feira, apesar da presença de militares nas ruas. Durante a madrugada ocorreram incêndios e saques às lojas da capital.

O Exército cercou o Museu Nacional do Egito, que fica próximo da sede do partido do governo, o Partido Nacional Democrático, incendiada pelos manifestantes. A operação no museu visa proteger os tesouros históricos do país, como a máscara de ouro do faraó Tutankhamon.

Os manifestantes também cercaram os prédios do Ministério das Relações Exteriores e da TV estatal durante a noite.

 

Tunísia

As manifestações da sexta-feira - de proporção sem precedentes na história do Egito - se seguem a três dias de protestos e foram inspiradas em uma onda de manifestações populares que culminou com a queda do presidente da Tunísia, Zine Al-Abidine Ben Ali, há duas semanas.

Também na sexta, policiais tunisianos evacuaram um acampamento de manifestantes diante do escritório do primeiro-ministro Mohamed Ghannouchi, em Túnis. Eles exigiam a renúncia do governo interino e a saída de todos os aliados de Ben Ali.

O premiê voltou a pedir calma aos manifestantes e disse que seu governo continuaria no poder até a instauração da democracia no país.

No Cairo, policiais entraram em confronto com milhares de manifestantes nas ruas, usando bombas de gás lacrimogêneo e canhões d'água para dispersar a multidão, que respondeu atirando pedras, queimando pneus e montando barricadas.

A BBC Brasil acompanhou alguns embates e viu policiais à paisana baterem em mulheres que caminhavam perto da multidão.

Conforme a noite avançava, helicópteros sobrevoavam a capital e tiros eram ouvidos.

Ao menos mil pessoas foram presas nos protestos

Estados Unidos

Em um discurso transmitido pela televisão logo depois do pronunciamento de Mubarak, o presidente americano, Barack Obama, afirmou que conversou longamente com o presidente egípcio pelo telefone e pediu a ele que respeite os direitos do povo egípcio e evite usar violência contra os manifestantes pacíficos. Mas, Obama também falou que os manifestantes tem a responsabilidade de se expressar de forma pacífica.

Ele pediu a Mubarak que tome "medidas concretas que avancem com os direitos do povo egípcio" e cumpra as promessas de reforma no país.

"A violência não vai tratar das queixas do povo egípcio. E reprimir ideias nunca consegue fazer eles (os manifestantes) irem embora", disse.

"Certamente, tempos difíceis virão, mas os Estados Unidos vão continuar a defender os direitos do povo egípcio e trabalhar com o governo do país para um futuro mais justo, mais livre e mais esperançoso", afirmou Obama.

Mais cedo, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que os Estados Unidos poderão revisar sua ajuda ao Egito com base no desenrolar dos eventos nos próximos dias.

O Egito é o quarto principal destinatário de ajuda americana, atrás apenas do Afeganistão, do Paquistão e de Israel.

Nesta sexta-feira, os governos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França lançaram um alerta para seus cidadãos, desaconselhando qualquer viagem não-essencial ao Egito.

Colaborou Tariq Saleh, enviado especial da BBC Brasil ao Cairo BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Tudo o que sabemos sobre:
egitomubarakprotestos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.