Exército egípcio contra o livre comércio

O Exército egípcio cuida da Defesa do país, mas também administra creches e resorts de praia. Suas divisões produzem aparelhos de TV, jipes, máquinas de lavar roupa, móveis e óleo de oliva, além de água engarrafada distribuída sob uma marca que leva o nome da filha de um general: Safi.

DAVID D. KIRKPATRICK,

19 de fevereiro de 2011 | 00h37

A rede de empresas do Exército não paga impostos, emprega mão de obra formada por recrutas, adquire terras públicas em condições favoráveis e nada declara ao Parlamento ou à sociedade. Desde a destituição do presidente Hosni Mubarak, o Exército também passou a administrar o governo. E, segundo alguns estudiosos, economistas e grupos empresariais, os militares já vêm adotando medidas para proteger os privilégios que a economia fechada proporciona, desaprovando mudanças que, para alguns, são cruciais para o Egito se transformar num país próspero e estável.

"Para proteger suas empresas de uma investigação e uma auditoria, o Exército traçou uma linha que não deve ser ultrapassada", disse Robert Springborg, especialista em Egito da Escola de Pós-graduação Naval. "Isso significa que não pode haver nenhuma fiscalização civil importante."

O marechal Mohamed Hussein Tantawi, ministro da Defesa e da Produção militar, que dirige o conselho militar no governo, vem defendendo um controle governamental dos preços e da produção. E se opõe firmemente a medidas para abrir a economia, de acordo com telegramas divulgados pelo WikiLeaks. Há sinais de que o Exército vem removendo do gabinete de governo e do partido no poder aqueles que defendem mudanças para liberalizar a economia, como a venda de empresas estatais e a eliminação de barreiras comerciais.

No governo, o Exército afastou algumas figuras conhecidas pelos enormes ganhos pessoais obtidos com a venda de propriedades públicas, especialmente o filho mais novo de Mubarak, Gamal, e seu amigo Ahmed Ezz, magnata do aço. Um promotor de justiça ordenou a prisão provisória de Ezz, antes de um julgamento por corrupção, e de dois empresários do gabinete de governo anterior - os ex-ministros Zuhair Garana, do Turismo, Ahmed el-Maghrabi, da Habitação, além de Habib el-Adli, ex-ministro do Interior.

Mas o governo militar também investiu contra os que defendem uma abertura econômica, como o ex-ministro das Finanças Youssef Boutros-Ghali, forçado a renunciar ao cargo, e o ministro anterior do Comércio, Rachid Mohamed Rachid, cujos bens foram congelados, sob acusações de corrupção. Ambos têm uma boa reputação no plano internacional e nunca foram acusados de nenhum ato corrupto.

"Isso deixou todo mundo perplexo", disse Hisham A. Fahmy, diretor executivo da Câmara Americana de Comércio no Egito. Numa entrevista, Rachid disse que se sentia como um bode expiatório. "As pessoas que defendem reformas liberais ou uma economia mais aberta estão sendo apanhadas numa campanha anticorrupção. Eu sou uma delas."

"Hoje, muitas vozes do passado falam em estatização. "Por que precisamos de um setor privado?"", acrescentou. Rachid não se referiu especificamente ao Exército, mas disse que, dentro do governo, "algumas pessoas tentaram dizer que a causa da revolução foi simplesmente a reforma econômica".

Apesar de alguns analistas ocidentais estimarem que o Exército detenha 30% da economia do Egito, o ex-ministro do Comércio diz que, na verdade, a cifra não passa de 10%. Mas, diante dos interesses pessoais, a preocupação é a de que militares queiram impedir a continuação da transição de uma economia dominada pelo Estado, instaurada pelo presidente Gamal Abdel Nasser, para o livre mercado. / TRADUÇÃO TERESINA MARTINO

É CORRESPONDENTE NO CAIRO

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