Exército egípcio se mantém fiel a suas prerrogativas

Durante grande parte do seu primeiro e único ano de governo, o presidente Mohamed Morsi e a Irmandade Muçulmana achavam ter subjugado o Exército do Egito, forçando a saída de generais do alto escalão e firmando um acordo com os sucessores que protegia as Forças Armadas contra uma vigilância da sociedade civil. O acordo foi encerrado esta semana.

CENÁRIO: Ben Hubbard / NYT, É JORNALISTA, CENÁRIO: Ben Hubbard / NYT, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2013 | 02h03

Com os tanques e soldados nas ruas, o general Abdul Fattah al-Sisi nem mesmo pronunciou o nome de Morsi ao anunciar que o presidente tinha sido deposto e a Constituição estava suspensa. Como seu predecessor, Morsi repentinamente descobriu que o Exército preocupa-se com ele mesmo acima de tudo. Não tem ideologia, mas é fortemente politizado.

Apesar de justificarem a intervenção na política como um ato para atender ao desejo da população, os militares nunca foram uma força pró-democracia. Segundo analistas, seu objetivo primário é preservar a estabilidade nacional e suas intocáveis prerrogativas dentro do Estado egípcio. "Fomos disciplinados e temos as armas", disse um oficial do alto escalão na quarta-feira. "É o que existe no momento. Você vê outra instituição sólida neste cenário?"

A remoção de Morsi realçou a posição das Forças Armadas como a mais poderosa instituição do Egito desde o golpe de seis décadas atrás, que derrubou o rei Farouk e levou à ascensão de Gamal Abdel Nasser. O Egito tem o maior Exército do mundo árabe, com 450 mil soldados, a maior parte recrutas e oficiais de patentes inferiores que não tiveram oportunidade de subir na carreira.

Há décadas, dezenas de milhares de oficiais de elite defendem ciosamente sua situação privilegiada. Vivem como uma classe à parte, com seus próprios clubes sociais, hotéis, hospitais, parques e outras vantagens financiadas pelo Estado. Muitos enriqueceram intermediando contratos do governo e empresas. Em alguns aspectos, são uma espécie de casta brâmane, em que filhos seguem a carreira dos pais e todos vivem dentro de um círculo social fechado.

Durante quase três décadas no poder, Hosni Mubarak, ex-comandante da Força Aérea, deixou que o Exército agisse ao seu bel prazer. Mas, depois de 18 dias de uma revolta popular contra o seu governo, esses militares quebraram o acordo. O ministro da Defesa, marechal Mohamed Hussein Tantawi, conhecido como o "poodle" do presidente, destituiu e prendeu Mubarak.

Por mais de um ano, os militares governaram o Egito e aprenderam uma lição que aparentemente orienta suas decisões agora. Assumir o governo deixa seus oficiais vulneráveis à indignação da sociedade com os problemas políticos, sociais e econômicos.

Embora muitos oficiais desconfiassem do passado islamista de Morsi - a Irmandade Muçulmana estava proscrita antes da revolução -, acolheram bem a sua posse, em junho de 2012, quando terminou a responsabilidade do Exército pelo governo. Além disso, Morsi atendeu duas exigências feitas por eles: eliminou toda a possibilidade de processos pós-revolucionários de oficiais por crimes cometidos na era Mubarak e aprovou uma Constituição que tiraria o orçamento da Defesa de qualquer supervisão parlamentar.

A aproximação se desfez com as crises internas. A economia continuou a despencar e a escassez de combustível e os apagões provocaram cólera da população. Morsi discursou num comício em que clérigos muçulmanos convocaram uma jihad na Síria, o que despertou temores de uma nova geração de egípcios radicais.

Quando se dirigiu à nação, Al-Sisi declarou que os militares tentaram se aproximar da presidência durante meses para aplacar a crise. Ao nomear um juiz pouco conhecido como presidente interino, não deixou claro até que ponto esse presidente terá autoridade ou se os militares é que governarão dos bastidores. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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