Wilton Junior / Estadão
Wilton Junior / Estadão

Exército não pode deixar passar a boiada; leia análise

É dever dos militares não perder de vista que, para além dos recursos e privilégios que tanto seduzem, há o futuro do país e de nossa claudicante democracia

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 12h00

Qual seria a reação do Planalto se um general da ativa tivesse comparecido, no dia 10 de março passado, ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, e subisse ao palco para discursar ao lado do ex-presidente Lula? Como teriam agido o comandante do Exército e o ministro da Defesa? Qual teria sido o comportamento do presidente da República?

Ao que tudo indica, estão querendo que o Exército deixe passar a boiada. Se a punição ao general Eduardo Pazuello for apenas a advertência, resta rezar para que a coisa não descambe de vez nos próximos meses. Afinal, oficiais menos graduados podem adotar a mesma prática, satisfazendo-se com uma mera advertência para ganhar o coração de um ex-oficial indisciplinado que hoje governa um País da complexidade do Brasil. Em vez de um Exército profissional, apegado à sua missão constitucional de defesa nacional, teremos uma instituição degradada, rebaixada e politizada. Um retrocesso do qual dificilmente as Forças Armadas poderão se recuperar.

A rachadura nas fileiras verde-oliva não serve ao Exército Brasileiro, à instituição Forças Armadas e tampouco ao País. Serve apenas a uma única frente política e tão somente à falange bolsonarista. O presidente fez por onde e conseguiu: levou a política aos quartéis. A razão é evidente e indisfarçável. E o ônus vai sendo debitado na conta dos militares enquanto o bônus é creditado na conta da sinecura bolsonarista. Se o Exército se deixar instrumentalizar, terá dado um passo em direção ao abismo, ajudando a levar de roldão nosso frágil Estado de Direito.

O que existe no Brasil é um governo em permanente crise política, que joga no antagonismo e no conflito institucional. Para onde o inquilino do Planalto aponta o seu dedo, as instituições sofrem espécie de cataclisma sísmico. Assim como Hugo Chávez, o presidente Bolsonaro quer o "seu exército" e parece acreditar que conseguirá. O falecido autocrata venezuelano conseguiu a sua tropa revolucionária, abduzida à serviço da erosão das instituições de Estado, da legalidade democrática e adepta ao golpismo sorrateiro. Deu no que deu.

O presidente está em guerra com o Brasil - por seu projeto de poder e não pelo povo. Se não estava claro, agora, enfim, está: o "comandante-em-chefe" não hesitará na instrumentalização de tudo o que estiver ao seu alcance, em prol de sua "revolução". Se o Exército deixar passar a boiada, vai tornar-se sócio majoritário da empresa política do presidente e da necropolítica que o move, jogando sua alta reputação na sarjeta da história.

A acomodação de milhares de militares em cargos na administração pública, a concessão de elástica monta de recursos às Forças Armadas e a aprovação de uma camaradíssima reforma da Previdência (e isso sem contar o teto salarial duplex), fazem com que o presidente julgue ser legítima a instrumentalização da corporação militar em benefício daquilo que ele entende ser a sua "luta". Mas é dever dos militares não perder de vista que, para além dos recursos e privilégios que tanto seduzem, há o futuro do país e de nossa claudicante democracia. Tornar-se sócio do Titanic em pleno naufrágio, não parece uma boa ideia, ainda que a orquestra do Transatlântico continue tocando música agradável aos ouvidos, apesar do desespero em volta.

A eleição de 2022 está logo na esquina. Chegaremos lá divididos, com os ânimos acirrados e com elevado risco de confronto nas ruas. As manifestações contra o governo Bolsonaro ocorridas no último sábado, 29 de maio, indicam que as ruas não mais serão de posse exclusiva dos negacionistas, dos saudosistas do regime militar e da frente ampla da cloroquina - talvez seja por isso que os esforços pela vacina foram sabotados. 

Ainda não é possível saber se o cenário da derrocada de Bolsonaro está ou não se desenhando. Os resultados da CPI da Covid, a seca que afeta as regiões onde estão localizadas as mais importantes hidrelétricas, o prenúncio de mais uma onda da pandemia e o aprofundamento das desigualdades sociais, vão dramatizando o cenário político a ser enfrentado pelo atual incumbente. 

E imaginem como seria se, em 2022, oficiais das Forças Armadas da ativa passarem a atuar como ativistas políticos - uns subindo no palanque de Bolsonaro e outros nos palanques dos demais candidatos. Seria, enfim, o rebaixamento da corporação militar de instituição de Estado a fragmentos político-partidários - não que seja algo que o presidente se importe tanto. A unidade das forças estaria ameaçada e o risco de transbordamento dessa fratura para as vias de fato nas ruas e na disputa eleitoral não deve ser minimizado. É a própria democracia e a preservação das Forças Armadas como instituição de Estado que estão em jogo, nada menos do que isso!

Ah...e voltando às indagações iniciais do texto, eis o que aconteceria: o Planalto teria feito um escarcéu, o comandante do Exército teria aplicado de imediato o código disciplinar - e, isto é, prisão -, o ministro da Defesa anunciaria a passagem do oficial general para a reserva e o presidente Bolsonaro faria uma "live" para saudar o expurgo de "comunistas" do Exército!

* É cientista político, professor de Relações Internacionais e pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras

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