Exército pode ser o árbitro no Paquistão

Instabilidade preocupa militares, até agora avalistas de Musharraf

Shahan Mufti, Christian Science Monitor, O Estadao de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 00h00

A última vez que o presidente paquistanês, Pervez Musharraf, suspendeu a Constituição, demitiu juízes da Suprema Corte e investiu contra os partidos políticos, em 1999, ele obteve apoio de todos os lados: do alto escalão do Exército, de capitais ocidentais importantes,da elite empresarial e da classe média.Grande parte desse apoio desgastou-se na medida em que a guerra contra o terror o empurrou para mais perto de Washington. Mas ele continuou dominando a cena política com o apoio do Exército, que, para alguns, é o seu único eleitorado. A crescente agitação no país e a consternação manifestada em Washington podem fazer com que altos oficiais acabem se tornando novamente o árbitro final do poder político. Embora analistas estimem que o Exército continua apoiando Musharraf, uma coisa é certa: o establishment militar do Paquistão não permitirá que seu prestígio e posição fiquem comprometidos. "O Exército sempre reluta em agir contra seu chefe", disse Ikram Sehgal, editor do Defence Journal e major da reserva. Mas a pressão sobre Musharraf para que deixe a chefia militar "pode ser o único meio de o Exército redimir sua imagem", disse ele.Antes da crise política dos últimos dias, Musharraf agia com a confiança de um militar que conta com absoluta lealdade do Exército. Contudo, o Exército do Paquistão é uma instituição que, historicamente, mostra um vigoroso sentido de identidade e missão que o obriga a fazer mais em favor do país do que da presidência. "O Exército terá de participar de qualquer mudança política", disse Hassan Askari Rizvi, ex-professor de estudos paquistaneses na Universidade de Columbia e autor de Military, State and Society in Pakistan (Exército, Estado e Sociedade no Paquistão). "Poderá ser um mediador entre as partes como foi no passado", disse ele. "Direta ou indiretamente, o Exército terá de ajudar numa solução." GOLPEA declaração da emergência, há uma semana, assemelha-se muito ao golpe de Musharraf contra o primeiro-ministro Nawaz Sharif em 1999. Mas, desta vez, a recepção não foi a que o general esperava. A Casa Branca recuou e protestos de rua crescem e correm o risco de sair do controle - o que preocupa especialmente o Exército.A tensão também intensifica a pressão sobre o Exército para que estabilize o país, como fez no passado. Para alguns, as desesperadas manobras políticas de Musharraf podem fazer também com que o Exército passe a vê-lo como um risco para a instituição. "Musharraf jurou solenemente para a Suprema Corte que tirará a farda - e disse o mesmo para os comandantes das forças", disse Sehgal. "Agora, com o estado de emergência, tudo ficou confuso. Eles querem que ele continue (na presidência), mas desejam também que cumpra a sua palavra." Os militares nunca encenaram um golpe contra um dos seus. Mas, anteriormente, uma pressão sutil das altas patentes influenciou ditadores militares a renunciarem. "O general Ayub Khan (primeiro governante militar do país) teve de renunciar em circunstâncias similares quando a população também foi às ruas se manifestar", observou Kamal Matinuddin, analista independente e tenente aposentado do Exército.

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