Exército reduz poder de eleito no Egito; projeção dá vitória a candidato islâmico

A junta militar egípcia emitiu ontem, ao fim da votação presidencial, uma medida constitucional provisória que garante aos militares poderes legislativos após a dissolução, semana passada, do Parlamento eleito em janeiro e dominado por partidos islâmicos. Ao assumir o controle sobre o grupo que redigirá a nova Constituição, os militares limitam os poderes do futuro presidente. Projeção extraoficial dava a vitória ao candidato Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana.

CAIRO , O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2012 | 03h00

Analistas interpretaram o movimento dos militares como uma precaução em caso de vitória de Morsi sobre Ahmed Shafiq, ex-premiê de Mubarak e preferido da junta militar. Os primeiros resultados, extraoficiais, divulgados pela Irmandade, apontavam uma vantagem de 52,5% a 47,5% em favor de Morsi. No início da manhã de hoje (horário egípcio), o grupo reivindicou a vitória na eleição. Levantamento da rede Al-Jazeera também apontava vantagem de Morsi.

A votação do fim de semana foi marcada pela baixa participação nos postos eleitorais e pela desilusão dos eleitores com o protagonismo dos militares. A junta deve dar hoje, em entrevista coletiva, mais detalhes sobre a Constituição provisória editada ontem, informou a TV estatal. Segundo a imprensa egípcia, com o decreto os generais tornam-se os parlamentares de facto do país. Eles nomearam um painel de 100 membros encarregados de escrever a futura Carta.

Os militares garantirão poder de decisão em temas estratégicos, como a defesa e a segurança nacional, e protegerão seu império econômico, construído durante mais de 50 anos de ditadura, da fiscalização civil. Também assumirão o controle sobre o orçamento militar e as decisões do país em caso de guerra. Ainda de acordo com a imprensa egípcia, o novo eleito terá de prestar juramento ao Comando Supremo das Forças Armadas.

Líderes da Irmandade Muçulmana, o principal partido do Parlamento dissolvido na semana passada, criticaram a decisão. Segundo a legenda, o Exército não tem o direito de emitir decretos para formar uma Assembleia Constitucional e está "dando um golpe no processo democrático".

O grupo convocou protestos de rua caso o candidato dos militares, Shafiq, derrote o islâmico Morsi. "Voltaremos às ruas (caso Shafiq vença)", disse o porta-voz da Irmandade, Murad Ali. "Mas faremos isso sem violência."

Votação. Os egípcios foram às urnas ontem, no último dia do segundo turno das eleições para a escolha do seu primeiro presidente desde a derrubada de Hosni Mubarak. O comparecimento foi menor do que o esperado.

"É o começo... O boicote vence", dizia a manchete de domingo do jornal independente Al Shorouk, referindo-se a uma campanha dos militantes secularistas em repúdio à legitimidade das eleições e à escolha entre os candidatos.

O baixo comparecimento - o horário de votação foi ampliado por duas horas, até as 22 horas locais - pode ter refletido a insatisfação pela escolha dos candidatos que continuaram no segundo turno: Shafiq, ex-general da Força Aérea e fiel seguidor de Mubarak, que prometeu restaurar a ordem e impedir a ascensão de uma teocracia islâmica ultraconservadora nos moldes do Irã, ou Morsi, veterano da Irmandade Muçulmana, anteriormente considerada ilegal, que fez campanha como defensor da revolução contra a volta da autocracia controlada pelos generais.

A junta, que tomou o poder depois da derrubada de Mubarak, há 16 meses, prometera que o segundo turno presidencial de dois dias, no fim de semana, seria a fase final da transição para um governo civil.

Entretanto, na quinta-feira, eles dissolveram o Parlamento eleito pelo voto, no qual os islamistas conquistaram a maioria. Munidos de uma ordem obtida às pressas dos juízes de um tribunal eleitos por Mubarak, eles se declararam os únicos legisladores, mesmo depois da eleição de um novo presidente.

Se a vitória de Morsi for confirmada, ele terá pela frente uma longa luta pelo poder contra os generais. Shafiq contaria com o apoio dos militares.

Duelo. Shafiq, o último primeiro-ministro de Mubarak, não comentou publicamente a dissolução do Parlamento. Ele votou no domingo no estilo de seu antigo chefe, chegando à sessão eleitoral, em um bairro de classe alta, com um forte esquema de segurança composto por militares e policiais. As filas foram obrigadas a abrir passagem e os guardas imediatamente fecharam a sessão para que ele pudesse votar. "A Irmandade está dissolvida", gritavam, aplaudindo a dissolução do Parlamento dominado pelo grupo islâmico. A imprensa oficial noticiou que um cinegrafista a bordo de um veículo militar filmou o percurso de Shafik até a urna, aparentemente para guardar o ato para a posteridade em caso de eleição.

Morsi, da Irmandade Muçulmana, definiu a votação como a última chance para impedir o renascimento do governo de Mubarak. Ele aguardou na fila durante mais de duas horas num calor de quase 38°C para depositar o seu voto na cidade de Zagazig, no Delta do Nilo, onde ele lecionava engenharia. "Deus é grande", gritou um grupo de partidários quando ele saiu. O candidato gritou de volta uma saudação aos que foram mortos nas manifestações contra Mubarak. "Hoje é o dia dos mártires", declarou. "Não há lugar para os auxiliares de Mubarak." / AP e NYT

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