Exército sírio expulsa rebeldes de bairro de Homs

Segundo dissidentes, saída de Baba Amr foi estratégica; oposição confirma que recebe armas de países árabes

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA , ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS , O Estado de S.Paulo

02 de março de 2012 | 03h04

O Exército sírio ocupou ontem o bairro de Baba Amr, em Homs, após três semanas de um violento cerco a rebeldes armados. Em comunicado, os dissidentes disseram ter optado por uma saída tática. Os militares leais ao ditador Bashar Assad declararam a área território seguro. Em Paris, o Conselho Nacional Sírio (CNS) confirmou que o movimento rebelde está recebendo armas de outros países do Oriente Médio. Ao menos 26 pessoas morreram nos conflitos de ontem.

Segundo os rebeldes, o objetivo da retirada de Baba Amr era proteger os civis que vivem no bairro e permitir o acesso de agências humanitárias aos feridos. O Exército ocupou a região com tanques e 7 mil homens.

A Cruz Vermelha disse ontem que recebeu autorização das autoridades de Damasco para entrar em Baba Amr. A operação deve ocorrer hoje. Ontem, após a fuga dos rebeldes, autoridades sírias encontraram os corpos da jornalista americana Marie Colvin e do fotógrafo francês Rémi Ochlik em Baba Amr. Segundo a agência estatal Sana, os dois dinham sido "enterrados na região que era controlada por grupos terroristas armados". Pouco antes de morrer, Marie informou por telefone que a região estava sob intenso bombardeio do Exército de Assad.

Dois jornalistas franceses que estavam retidos em Homs foram levados ontem para o Líbano, disse o presidente da França, Nicolas Sarkozy. A repórter free lance Edith Bouvier, que teve o fêmur estilhaçado durante um bombardeio em Baba Amr, chegou ao Líbano com o fotógrafo William Daniels.

O Exército Livre da Síria divulgou nota na qual informa que abandonou a área como uma estratégia para poupar os civis da região. Segundo os rebeldes, não há mais armas para proteger essa população. Cerca de 4 mil pessoas estavam ainda no bairro, já sem água, energia e alimentos. A neve dos últimos dias também prejudicou o terreno. "O Exército de Assad destruiu a maioria das casas dos civis, usando mísseis e bombas", diz o texto.

Fontes do Exército Livre da Síria garantiram por telefone ao Estado que a saída foi negociada para evitar uma confrontação final entre as duas forças.

A ONU estima que pelo menos 7,5 mil pessoas tenham morrido nos combates na Síria. O governo de Assad diz que 2 mil soldados foram mortos. Diante da escalada da violência, o secretário de Assuntos Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, anunciou que Londres começou a retirar todos seus diplomatas de Damasco e suspendia as operações.

Armas. Em Paris, o CNS, órgão que reúne os dissidentes do regime de Assad, confirmou que o movimento rebelde está recebendo armas de países vizinhos. A revelação foi feita enquanto o presidente do CNS, Burhan Ghalioun, anunciava a criação de um Ministério da Defesa paralelo para coordenar o recebimento e a distribuição de armas aos revolucionários.

As provisões de fuzis e foguetes vêm sendo enviadas por diferentes governos árabes, mas em maior escala por dois deles: o do Catar e o do Kuwait. O contrabando de armas é feito por terra, pela fronteira da Síria com o Iraque, em um volume desconhecido. "Nós queremos evitar as entregas diretas por países a grupos não reconhecidos. Está fora de questão que as armas entrem na Síria sem controle e em total desordem", afirmou Ghalioun.

Segundo o líder rebelde, com a violência da ofensiva do Exército sobre cidades como Homs, a tendência é que a luta armada ganhe espaço, conduzindo o país a uma guerra interna - como ocorreu na Líbia. Daí a necessidade de um Ministério da Defesa, um órgão de caráter político, e não um Estado-Maior, que teria caráter estritamente militar. Outro objetivo do CNS é evitar que facções rebeldes armadas, como o Exército Livre da Síria e o Conselho Militar Revolucionário Superior, acabem lutando entre si, e não contra as forças de Assad.

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