Exército tornou difícil a vida na selva

Ofensivas do governo, apoiadas pelos EUA e Plano Colômbia, forçam guerrilheiros a lutar dias e noites seguidos

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Outro motivo que leva a deserções das Farc é que a vida de guerrilheiro está cada vez mais arriscada. Além dos conflitos com os paramilitares e o ELN, que competem com as Farc por territórios e rotas do tráfico, os rebeldes estão sendo acuados pela pesada ofensiva militar do governo Uribe. ''''Nos últimos anos chegávamos a combater por dias e noites, sem descanso'''', lembra Carlos (nome fictício), ex-comandante das Farc. No final da década de 90, cerca de 400 municípios colombianos não tinham nem sequer um policial. Era relativamente fácil controlar 30% do território e quase um quarto da população do país. Hoje, a guerrilha foi empurrada para as regiões de fronteira e porções isoladas do território colombiano graças à ofensiva militar apoiada pelo EUA e pelos mais de US$ 3 bilhões do Plano Colômbia.Além disso, muitos guerrilheiros se desiludiram com o grupo já que, depois da associação com o narcotráfico e a adoção do seqüestro como forma de financiamento, pouco restou da ideologia marxista com a qual ele foi fundado. ''''Hoje a motivação na guerrilha é puro narcotráfico'''', diz o ex-guerrilheiro Ernesto. Para a soldadesca, os privilégios dos comandantes também parecem incompatíveis com o igualitarismo social que as Farc defendiam no início de sua trajetória. ''''Houve época em que a guerrilha procurava de fato ajudar a população onde atuava, dando segurança e exigindo dos governantes locais que fizessem obras para o povo'''', diz Carlos. ''''Hoje, dá para perceber que os guerrilheiros são malvistos porque estão sempre ameaçando e obrigando os trabalhadores a deixarem seus lares. Quando era comandante, por exemplo, tive de expulsar até amigos de suas fazendas.''''No programa do governo para integrar os ex-combatentes, os desmobilizados recebem uma ajuda mensal de 400 mil pesos (cerca de US$ 200) com a condição de freqüentarem um psicólogo, estudarem e participarem de um curso profissionalizante. Na guerrilha não recebiam nada. A família tem acesso garantido aos serviços básicos de saúde e educação e também recebe orientação dos assistentes sociais. Como há ameaças de retaliação da guerrilha, os ex-combatentes também têm ajuda para se mudar para uma outra cidade.A média de idade deles é de 26 anos e metade é analfabeta funcional. ''''Eles vêm de meios nos quais a violência e a transgressão das regras são algo normal e não estão acostumados a ter seus ganhos como parte de um esforço diário'''', diz Frank Pearl, o coordenador do programa. ''''Empregamos os ex-guerrilheiros em trabalhos que trazem benefício para toda a comunidade, como a construção de escolas e casas populares.''''Outro problema para a integração de ex-combatentes é a crise de identidade, que muitas vezes leva à baixa auto-estima. ''''Na organização (Farc) eu era preparado para dirigir uma cidade quando tomássemos o poder - porque os guerrilheiros realmente acreditam que vão derrubar o Estado colombiano'''', conta Carlos. ''''Tinha guarda-costas, status e lidava com uma quantidade de dinheiro imensa, em cash. Quando me vi um cidadão comum, pegando ônibus, estranhei muito.''''Também é verdade que nem todas essas histórias têm final feliz. Cerca de 700 combatentes dos grupos armados colombianos que se desmobilizaram foram mortos nos últimos anos e 4 mil voltaram a delinqüir ou ao menos desapareceram dos radares oficiais.As denúncias de que paramilitares desmobilizados estariam voltando a reunir-se, por exemplo, são freqüentes. ''''Seria impossível obter sucesso em todos os casos, mas o fato de que tantos ex-combatentes já estejam conseguindo retomar a vida de uma maneira que contribui para a sociedade é animador'''', diz Pearl.A ex-integrante da organização paramilitar de direita Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), María Carmen, que fugiu da selva porque estava grávida - falta punida com a morte em sua unidade - é um exemplo esperançoso.Ela afirma que, enquanto conversa com o Estado, deixou a filha em casa, sob o cuidado de duas amigas. ''''Ambas são ex-combatentes das Farc que eu conheci do programa de reintegração. E uma delas ainda namora um soldado'''', diz. ''''Fosse há alguns anos, nós todos estaríamos nos matando. Atualmente, nos ajudamos e damos boas risadas juntos.''''GLOSSÁRIO DA GUERRILHADar baixa: Matar, assassinarDesalojar: Dar 24 horas para que camponeses ou produtores rurais abandonem suas terras, sob ameaça de morteVacina: Imposto cobrado mensalmente dos empresários e agropecuaristas, calculado sobre a produção estimada de cada umElenos: Guerrilheiros do ELNEstar na área: Estar na selva, em combateA organização: FarcGatillero: É o matador, encarregado de liquidar os colegas que cometem faltas graves

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