Lefteris Pitarakis/AP Photo
Lefteris Pitarakis/AP Photo

Exército turco avança em território sírio; curdos e ONG falam em 19 mortos

Forças de Recep Tayyip Erdogan conduziram ações terrestres e aéreas em aldeias ao longo da fronteira com a Síria; Forças Democráticas Sírias falam em três mortos em comboio civil e ONG aponta baixa de 16 combatentes curdos

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2019 | 11h01
Atualizado 10 de outubro de 2019 | 15h53

ISTAMBUL - As forças da Turquia avançaram nesta quinta-feira, 10, no nordeste do território da Síria como parte da campanha militar ordenada pelo presidente Recep Tayyip Erdogan para expulsar combatentes curdos da região, afirmou o Ministério da Defesa, expandindo uma ofensiva que provocou forte repreensão da comunidade internacional.

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A operação, incluindo forças aéreas e terrestres, teve como alvo aldeias ao longo da fronteira com a Síria no início desta quinta-feira, segundo dia da ofensiva, informou o ministério em comunicado. 

A Turquia informou que pretende criar uma "zona de segurança" no nordeste da Síria, onde as forças lideradas pelos curdos controlam o território, mas os críticos temem que a ação possa mergulhar a região em uma nova crise.

De acordo com o jornal turco Hürriyet, Ancara pretende assumir o controle de uma faixa de território na fronteira de 120 km de comprimento e 30 km de profundidade.

Autoridades curdas reagiram às reivindicações de avanço turco, dizendo que seus combatentes repeliram uma incursão terrestre perto da cidade de Tal Abyad durante a noite.

"Nossas forças bloquearam uma tentativa de incursão terrestre do Exército de ocupação turco no eixo Tal Halaf/Aluk", afirma um comunicado as Forças Democráticas Sírias (SDF, em inglês), lideradas pelos curdos.

As SDF, que se uniram às tropas dos EUA para combater o Estado Islâmico (EI) na Síria, disseram que os bombardeios turcos tinham como alvo uma prisão que mantinha alguns dos combatentes do grupo jihadista na cidade de Qamishli. 

Milhares de prisioneiros do EI e suas famílias estão detidos em campos e prisões administrados pelas autoridades curdas da Síria.

Em comunicado no Twitter, Mustafa Bali, porta-voz da SDF, disse que os militares da Turquia atingiram um comboio civil também perto de Tal Abyad, a cerca de 400 metros da fronteira turca, matando três pessoas.

A Turquia diz que os combatentes curdos sírios são terroristas em razão de seus vínculos com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que travou uma batalha de uma década no sudeste da Turquia por maior autonomia. 

Ancara lançou sua ofensiva contra o SDF no nordeste da Síria na quarta-feira, com ataques aéreos e bombardeiros contra postos avançados ao longo da fronteira. Mísseis lançados da Síria atingiram pelo menos duas cidades turcas, informou a imprensa.

A incursão turca ameaça dividir ainda mais a Síria, país devastado pelos mais de oito anos de guerra civil.

Mikael Mohammad, dono de uma loja de Tal Abyad, fugiu da cidade com sua família na quarta-feira e dormiu ao ar livre em uma área rural. "Eu tive de sair apenas com as roupas do corpo", disse Mohammad por telefone. "Eu entrei no carro, peguei minha família e dirigi... para longe da fronteira."

"Tudo o que reconstruí nos últimos anos, posso ter acabado de perder novamente", disse Mohammad. "O bombardeio é bárbaro e indiscriminado."

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos, grupo com sede no Reino Unido que monitoramento a guerra síria, disse que 16 combatentes da SDF foram mortos desde o início da operação na quarta-feira, incluindo em Ras al-Ayn, que fica a 120 quilômetros a leste de Tal Abyad.

Nawras, morador de Ras al-Ayn, descreveu uma noite de bombardeios intensos. Os ataques aéreos foram retomados pela manhã nesta quinta, o que o fez fugir com a família.

"As pessoas estão deixando Ras al-Ayn enquanto falamos", afirmou Nawras, que era eletricista na cidade. "Me disseram que a cidade ainda está sendo atacada e não devemos pensar em voltar por enquanto."

Ameaça de Erdogan 

Erdogan defendeu nesta quinta a incursão de forças da Turquia na Síria após uma onda de críticas internacionais, dizendo que a operação militar reforçará a integridade territorial da Síria ao confrontar o controle curdo do nordeste do país.

“Eles não são honestos, eles apenas inventam palavras”, disse Erdogan em relação aos críticos da Turquia, destacando a Arábia Saudita e o Egito. “Nós, no entanto, criamos ação e essa é a nossa diferença”, disse ele a membros do seu partido AK em Ancara.

Ele também ameaçou "abrir as portas" e enviar milhões de refugiados para países da União Europeia (UE) caso o bloco critique a ofensiva turca e classifique o ataque como "invasão".

"União Europeia, refaça seu julgamento. Se definir a nossa operação como uma invasão, o nosso trabalho é fácil. Abrimos as portas e enviamos 3,6 milhões de refugiados a vocês", alertou o político islâmico durante discurso em Ancara.

Erdogan acusou a UE de mentir e de não ter mantido a promessa de proporcionar ajuda econômica à Turquia. A reclamação se refere ao acordo fechado em 2016 pelo qual o governo turco aceitava controlar o fluxo de refugiados para a Europa em troca de apio financeiro para atender aos imigrantes no seu território.

O governante também denunciou que a União Europeia está há décadas nos dizendo que a Turquia poderá entrar no bloco - as negociações formais começaram em 1987. "Vocês nunca foram sinceros. Agora dizem que bloquearão € 3 bilhões (prometidos à Turquia no âmbito do acordo migratório). Por acaso alguma vez vocês respeitaram alguma promessa que nos fizeram? Não", reclamou.

Erdogan pediu aos integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), da qual a Turquia faz parte, e especialmente aos Estados Unidos, que apoiem o país na operação militar no norte da Síria. "Não aceitamos que optem por uma organização terrorista antes da Turquia", criticou Erdogan. 

Irã pede fim da ofensiva

As autoridades iranianas pediram o fim imediato da ofensiva turca na Síria. "O Irã insiste em um cessar imediato dos ataques e em uma retirada das unidades militares turcas mobilizadas em território sírio", afirma comunicado divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores em Teerã.

O governo iraniano destaca que "entende as preocupações de Turquia em termos de segurança, mas considera que as medidas militares não são a solução para estes problemas", completa o texto.

Teerã expressou na segunda-feira sua "oposição" a qualquer "ação militar" turca na Síria, por considerar que isto provocaria "danos humanos e materiais importantes, quando a prioridade é a estabilidade e a segurança" do país.

Liga Árabe quer discutir ação

A Liga Árabe convocou uma reunião urgente no sábado para discutir a ofensiva da Turquia contra as forças curdas na Síria, anunciou a organização.

"A pedido do Egito, os ministros árabes das Relações Exteriores se reunirão no Cairo em 12 de outubro para discutir sobre a agressão turca em território sírio", declarou Hosam Zaki, vice-secretário-geral da Liga, em um comunicado. 

A ofensiva turca "viola o direito internacional e constitui um ataque inaceitável contra a soberania de um Estado membro da Liga", completou Zaki. 

A Síria foi suspensa da organização pan-árabe em 2011, poucos meses após o início do conflito no país. A questão da reintegração de Damasco provoca divisão há mais de um ano entre os países da Liga. / W.POST, AFP, EFE e REUTERS

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