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Exigências britânicas

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, deve confirmar hoje a realização de um referendo sobre a permanência ou não da Grã-Bretanha na União Europeia. A decisão não é nova. Mas, após vencer as recentes eleições gerais e reassumir seu cargo de chefe de governo, a Grã-Bretanha decidiu acelerar o passo.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2015 | 02h02

Há um ano, esse referendo, cuja finalidade é puxar o tapete dos eurocéticos do Partido Conservador, de Cameron, e também dos populistas antieuropeus e anti-imigração do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip, na sigla em inglês), de Nigel Farage, seria realizado somente em 2017. Agora, Cameron pretende antecipar o voto para o fim de 2016.

Mas nada é certo. Cameron adora o mistério, como todos os bons estrategistas. Da mesma maneira, afirma que não sabe se votará a favor ou contra a manutenção da Grã-Bretanha na Europa. Estranha incerteza, mas que pode ser explicada. O primeiro-ministro, a partir de agora e até a realização do referendo, se empenhará em obter da Comissão Europeia, em Bruxelas, modificações no estatuto da Europa favoráveis a seu país. E quais serão essas emendas?

De novo, mistério. Cameron assegura que exigirá reformas de envergadura. Exigirá que sejam estabelecidas condições mais duras para a entrada de imigrantes na Europa e também garantias para a "City" (o centro financeiro britânico) contra uma integração progressiva na zona do euro - da qual o governo de Londres deseja absolutamente manter-se à parte.

Cameron é astuto. Eis a armadilha que prepara para Bruxelas: a União Europeia deve ceder às minhas demandas. Se não o fizer, então, votarei "contra" no referendo e meu país se encaminhará diretamente para uma "Brexit" (ou seja, a saída dos britânicos da UE). Como ele continua vago quanto às facilidades que reclamará de Bruxelas, poderá continuar empunhando uma "espada de Dâmocles" sobre as cabeças da Comissão Europeia.

A entidade e também os diferentes países do bloco estão exasperados com os caprichos de Londres. Depois que os britânicos aderiram à União Europeia eles só exigem condições especiais, favores, isenções.

Foi assim que a temida Margaret Thatcher obteve de seus parceiros vantagens financeiras exorbitantes. A propósito, podemos lembrar de uma história que ficou célebre. Na época, há cerca de 30 anos, o presidente da França era Jacques Chirac, personagem simpático, mas cuja linguagem costumava ser um pouco grosseira.

Ele teve uma reunião com Margaret Thatcher. Ela, teimosa e inflexível, exigiu novos favores do presidente. Chirac ficou exasperado. Acreditando que seu microfone estava desligado, exclamou em voz alta: "Mas o que quer essa velha? Que eu lhe ofereça meus colhões numa bandeja de prata?" A "velha", tendo entendido tudo, não se mostrou muito mais sorridente.

E hoje? François Hollande não está satisfeito. Teme que a saída da Grã-Bretanha, se ocorrer, ofereça argumentos eleitorais para Marine Le Pen, da Frente Nacional, que, como boa populista, critica contínua e violentamente Bruxelas. Mas não é apenas Marine Le Pen. Os eurocéticos são inúmeros na França. Não devemos esquecer que, em 2005, todos os países europeus foram chamados a votar por uma Constituição Europeia, após o Tratado de Maastricht. A França votou contra a Constituição. Mas, em 2007, Nicolas Sarkozy foi eleito presidente e forçou os franceses a se retratarem e os obrigou a votar de novo e favoravelmente à Europa.

A Alemanha mostra-se menos inquieta do que a França. Berlim, como Paris, é favorável à Europa e quer que Londres permaneça na UE. No entanto, a chanceler Angela Merkel faz uma análise diferente. Ela calcula que Cameron, depois de um último combate para salvar sua honra e algumas gentilezas oferecidas por Bruxelas, permanecerá na Comunidade. Ela está tranquila. O único problema, a seus olhos, é conseguir que Cameron reduza suas exigências.

Para isso, afirma-se em Berlim, é preciso não se irritar, não se inquietar, ganhar tempo. Em outros países, observamos reações inquietas. Na Espanha, há protestos contra as evasivas de Cameron. A Polônia teme ter de pagar a conta de uma saída dos britânicos. Em Bruxelas, ninguém está contente. E é difícil seguir o exemplo de Merkel e procurar não se enervar.

Nos longos corredores climatizados e taciturnos da Comissão Europeia, as pessoas estão angustiadas e confessam que uma eventual saída britânica seria pior, dez vezes pior, do que uma saída da Grécia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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