REUTERS/Pichi Chuang
REUTERS/Pichi Chuang

Exilado usa tecnologia contra Pequim

Nos EUA, Chen Guangcheng trabalha com ONGs para promover os direitos civis

Cláudia Trevisan - CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 22h30

Chen Guangcheng trocou a zona rural da China pelo subúrbio de Washington, mas continua a acordar todos os dias às 5 horas. O ativista cego que protagonizou uma fuga espetacular há três anos usa a tecnologia para tentar escapar da irrelevância a que muitos dissidentes chineses são condenados no exílio. Assim que sai da cama, Chen checa o noticiário e começa a enviar e receber e-mails, com a ajuda do assistente de voz de seu iPhone e um teclado em braile. 

“Os que vieram há algumas décadas tinham o Oceano Pacífico diante deles e só podiam se comunicar por cartas. Agora, todo mundo tem telefone e usa a internet”, disse Chen ao Estado. “Hoje tenho mais contato com pessoas na China do que no período em que estava em prisão domiciliar, sem poder usar o telefone ou o computador.”

Há pouco mais de três anos, o dissidente vivia em uma casa sem banheiro ou água encanada na vila rural de 500 habitantes da Província de Shandong onde nasceu, há 43 anos. Agora, ele e a família ocupam uma casa sem muros de Bethesda, a cidade vizinha de Washington preferida pelos casais que têm filhos.

Advogado autodidata, Chen entrou na mira das autoridades chinesas quando começou a defender mulheres submetidas a abortos e esterilizações forçadas, práticas consideradas ilegais mesmo dentro da rígida política de filho único. Após cumprir 4 anos de prisão sob a acusação de “perturbar a ordem pública”, o ativista foi mantido sob vigilância em sua casa, restrição que não era amparada em nenhuma ordem judicial.

Logo, ele e sua mulher, Yuan Weijing, concluíram que o único modo de recuperar sua liberdade seria fugir. “Guangcheng estava doente e morreria se continuasse confinado. Não tínhamos nada a perder”, lembra sua mulher Yuan, que o acompanha todo o tempo em Washington. 

O primeiro destino da família foi Nova York, onde o ativista estudou na New York University. O relacionamento com a instituição chegou ao fim de maneira ruidosa um ano mais tarde, quando o ativista acusou a instituição de expulsá-lo por pressão das autoridades de Pequim. 

Em agosto de 2014, o casal se mudou para Washington, onde o dissidente acredita que poderá ter mais influência sobre os destinos de seu país. Opositor do governo de Pequim, Chen critica a posição do presidente dos EUA, Barack Obama, em relação à China. “Ele é muito brando com o Partido Comunista.”

Em razão de sua militância contra abortos forçados, Chen despertou o interesse de grupos conservadores americanos, que defendem o fim do aborto legal em seu país. Na entrevista ao Estado, ele disse não temer ser usado pela direita dos EUA. “Não ligo para quem é filiado a quem. O que importa é se eles defendem direitos civis. Se esse for o caso, vou trabalhar com eles”, afirmou.

Em Washington, Chen atua em três organizações: Catholic University, Lantos Foundation for Human Rights and Justice e Witherspoon Institute. Esta última é uma organização conservadora, que tem entre suas missões realizar estudos sobre a “função crucial que o casamento e a família desempenham na promoção de uma sociedade capaz de se autogovernar de maneira democrática”. Nas três entidades, o dissidente chinês estuda temas como o sistema legal democrático, direitos civis e livre acesso à internet. 

Falar inglês ainda é sua maior dificuldade. Chen tem aulas quatro vezes por semana, mas ainda está longe de ser fluente. Sua mulher estudou inglês na China e domina a língua relativamente bem. Os mais adaptados aos EUA são os filhos do casal – o garoto Kerui, de 12 anos, e a menina Kesi, de 9 –, que falam inglês com desenvoltura e desfrutam de um grau de liberdade que era existente na sua vida sob vigilância. “Eles percebiam que eram controlados pelas autoridades”, disse Chen.

Antes da mudança para Washington, o irmão mais velho do ativista, Chen Guangfu, e sua mãe, Wang Jinxiang, também trocaram a China pelos EUA. Típicos camponeses, eles não falam inglês e vivem com a família do ativista em Bethesda. Em 19 de março, ambos estavam com suas roupas chinesas na plateia do National Press Club em Washington para o lançamento da autobiografia de Chen, The Barefoot Lawyer (O Advogado Descalço), na qual ele narra sua vida e dá detalhes da fuga que o levou da vila rural de Shangdong à capital dos EUA.

Fuga. O dissidente e sua mulher estudaram durante um ano os hábitos dos seguranças que se revezavam no portão da casa em que viviam. Em 20 de abril de 2012, Yuan identificou uma oportunidade quando um dos guardas se levantou para fazer chá e cobriu a visão dos demais. Ela agarrou o braço de Chen e sussurrou que o momento havia chegado. 

Nos meses anteriores, ambos haviam discutido todos os detalhes do trajeto que o ativista faria sozinho, sem enxergar, até chegar a um local onde teria ajuda de amigos. Cada vez que tinha oportunidade de sair de casa, Yuan identificava obstáculos e eventuais problemas que poderiam surgir no caminho do marido. Para que sua ausência não levantasse suspeitas, Chen havia passado semanas na cama, supostamente doente.


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