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Mac Margolis
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Exilados e exaltados

Quem disse que o realismo mágico morreu? Pode ser que o icônico gênero de ficção, que teve seu auge nas décadas de 60 e 70 e lançou a América Latina no mapa-múndi da imaginação, tenha passado do prazo de validade. Mas, enquanto houver caudilhos, impérios trapalhões, causas inflamadas e conflitos exóticos, haverá sempre um lugar garantido para a narrativa do fantástico à americana.

Mac Margolis ,

07 de julho de 2013 | 02h04

Veja nossos tempos febris. Enquanto escrevo, Edward Snowden, o ex-analista de segurança dos EUA que revelou segredos e se mandou do país, continua confinado na sala de trânsito no aeroporto de Moscou. A falta de relatos claros dá asas à fantasia e não é difícil imaginar o jovem bisbilhoteiro, de jeans amarrotados e barba por fazer, zanzando pelo saguão.

Pelo protocolo, os países da América Latina seriam figurantes nessa querela entre grandes poderes. Até a semana passada, nem a China nem a Rússia quiseram esticar a conversa com Snowden, pois sabiam que se concedessem asilo, comprariam briga com o governo de Barack Obama, para quem o indiscreto técnico de informática é um traidor.

Os bolivarianos, porém, correm para onde os anjos temem pisar. Questionado se aceitaria Snowden em seu país, o presidente boliviano Evo Morales, em viagem a Moscou, foi intrigante. "Por que não?". Causou um fuzuê internacional. O americano fujão estaria de carona no avião de Morales? Os governos do Ocidente morderam a isca. Por ordem de Washington ou por conta e risco próprios , França, Itália, Portugal e Espanha negaram à comitiva boliviana o direito de sobrevoar seu território nacional e o avião presidencial foi desviado para Viena.

Quando pousou em La Paz, 24 horas depois, Morales desembarcou como herói da resistência. "A América Latina merece um pedido de desculpas", afirmou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em reunião emergencial da Unasul. Evo até ofuscou seu par bolivariano, o presidente equatoriano Rafael Correa. Duas semanas antes, Correa também causou alvoroço ao acenar para Snowden, que pedira asilo ao seu governo, por intermédio de outro foragido internacional, Julian Assange, fundador do WikiLeaks, atualmente abrigado na embaixada equatoriana em Londres.

Lançada a intriga, Correa recuou e hoje afirma que só considera o pedido se Snowden conseguir chegar ao Equador. Pura bruma andina, pois Correa sabe que o desterrado americano, que teve seu passaporte anulado, dificilmente sairá de onde está, a não ser num voo de regresso para casa.

Cutucar os gringos é uma coisa, um papel que Correa e Morales encarnam com brio. Morales já expulsou a agência americana antidrogas (DEA) e a de cooperação (Usaid). Agora, estuda fechar a embaixada dos EUA. Já Correa acaba de cancelar um tratado de comércio com os intrometidos de Washington. Outra coisa é converter seu país em spa de hackers com folha corrida internacional. "A prova de sinceridade seria um governo oferecer a Snowden asilo e emprego em suas organizações de inteligência e segurança", sugere o economista boliviano Roberto Laserna.

Mantido o impasse na vida real, resta a saída pela ficção. No romance Direito de Asilo, o autor cubano Alejo Carpentier fez sua parte. A história retrata um azarado presidente latino-americano que depois de sofrer um golpe de estado se refugia na embaixada de um país vizinho. Ano vai e ano vem, e o refugiado acaba ganhando cidadania do país vizinho - que o indica para ser embaixador na sua pátria nativa. Na caneta de Carpentier, a charada sobre o exílio e a identidade latina é uma boa fantasia que acaba em farsa. Já o desfecho para Assange e Snowden ainda está em aberto.

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE http://www.BRAZILINFOCUS.COMMAC

 

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