Existem diferenças entre os candidatos

É engraçado como chegamos a este ponto na campanha eleitoral americana, atingindo o marco de resultados de 24 Estados na madrugada de quarta-feira, e, no entanto, permanece um mistério para muita gente. O que, exatamente, esses candidatos em disputa defendem? A retórica de Barack Obama em Iowa, as lágrimas de Hillary Clinton em New Hampshire, o papel - favorável ou desfavorável? - de Bill, o custo ou benefício da raça de Obama e do gênero de Hillary. Do lado republicano, tivemos o mormonismo de Mitt Romney, a idade de John McCain e a sagacidade de Mike Huckabee. Isso é um pouco caricatural, mas não muito. As diferenças políticas não estiveram exatamente no centro do palco. No entanto, seria um grave erro concluir que, de certa forma, esta eleição não passa de uma disputa de personalidades, ainda que eletrizante. Em 2000, era moda dizer que Al Gore e George W. Bush eram gêmeos ideológicos. Agora sabemos, à nossa custa, o quanto isso estava errado. Então, agora que a campanha presidencial entra em uma nova fase, talvez devêssemos fazer uma observação mais profunda sobre o que esses candidatos realmente defendem. Começando com Obama, o candidato que, mais do que qualquer outro, é acusado de ser fraco nos detalhes. É fato que ele não oferece nada que se pareça às minúcias programáticas de Hillary, mas, mesmo assim, ele deixa claro o que propõe. No mês passado, o discurso padrão de Obama começava com a declaração de que "a nação está em guerra e o planeta está em perigo". Nessa única sentença, ele sinalizava duas rupturas radicais com os últimos oito anos, sobre o Iraque e sobre a mudança climática. Sobre o Iraque, ele cita sua própria oposição inicial à guerra para traçar uma de suas linhas divisórias mais nítidas com Hillary. Em outubro de 2002, quando era um simples deputado estadual de Illinois, ele discursou contra a guerra. Naquele mesmo momento, Hillary votava no Senado para autorizar o uso da força no Iraque, uma decisão que ela nunca repudiou. Obama não cita seu próprio discurso, mas seria valioso se o fizesse. Ele condenou "uma guerra estúpida" em termos que agora parecem notavelmente premonitórios. Mais de cinco anos depois, Obama promete uma retirada americana e "sem bases permanentes" no Iraque, além de uma guarnição para proteger a embaixada americana em Bagdá. Ele enviaria mais forças ao Afeganistão. Depois, estabeleceria conversações com vizinhos do Iraque, incluindo Irã e Síria, porque países fortes "falam tanto com seus inimigos como com seus amigos". Ele diz que não só encerraria a guerra no Iraque, mas daria um fim ao "estado de espírito que levou à guerra no Iraque". Isso significa um esforço para restaurar a posição dos Estados Unidos no mundo. Nesse mesmo sentido, ele fecharia Guantánamo e restauraria o direito ao habeas-corpus para que nenhum suspeito ficasse detido sem acusação. Relacionado a isso estará seu esforço para acabar com a dependência americana do petróleo do Oriente Médio, necessária para promover o avanço da "energia verde" (tanto ele como Hillary evitam a linguagem da mudança climática e do aquecimento global, preferindo se concentrar mais nas soluções do que na nomeação dos problemas). No âmbito doméstico, Obama que pagar mais aos professores e elevar o teto das contribuições para a previdência social . Hillary toca em alguns desses pontos, embora tenha se esquivado da questão da contribuição para a previdência. Ela também deseja uma energia mais verde e "encerrar a guerra no Iraque e trazer nossos soldados para casa", prometendo começar a retirada de pessoal num prazo de 60 dias após assumir a presidência. Seu marido diz "vamos usar diplomacia tanto com amigos como com inimigos", uma ligeira mudança em relação à condenação que ela fez anteriormente de Obama como "ingênuo e irresponsável" por sugerir que conversaria com Mahmud Ahmadinejad e Fidel Castro. Sua diferença crucial com Obama está na provisão de assistência à saúde. Ambos concordam que é uma calamidade o fato de dezenas de milhões de americanos não terem nenhuma cobertura. Ela faria decretos obrigando todo mundo a se segurar; ele não propõe uma adesão compulsória, supondo que as pessoas comprarão o seguro quando ele se tornar acessível. Então, em poucas palavras, ela está à esquerda dele na questão da saúde e ele está à esquerda dela sobre o Iraque. Fora isso, há uma enorme superposição entre seus programas - e, ainda mais, ambos seriam reconhecíveis aos olhos europeus como firmemente assentados na centro-esquerda. Nem sempre foi assim no Partido Democrata dos EUA. Dada a proximidade entre eles em tanta coisa substancial, não surpreende que sua disputa tenha se transformado em um duelo sobre seus méritos pessoais como candidatos. Mas isso não deve obscurecer uma verdade maior, também salientada nessa temporada de primárias: que o abismo entre eles e os republicanos continua amplo e real. Sobre os grandes temas que unem Obama e Hillary, os principais concorrentes republicanos são absolutamente contrários. No mês passado, eles competiram para declarar seu apoio à guerra no Iraque. Sobre a mudança climática, McCain admite o problema, mas encontraria pouco respaldo em seu partido para tomar alguma atitude. Quanto ao restante, os programas sociais defendidos pelos democratas são condenados como desperdício de gastos e a necessidade de uma cobertura de saúde universal mal é registrada. A batalha até agora pode ter sido, aparentemente, sobre identidades, currículos e estilo político. Mas não se enganem: a batalha final será sobre duas concepções inteiramente diferentes dos EUA e de seu lugar no mundo. * Jonathan Freedland é colunista do jornal ?The Guardian?

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