Êxito econômico teve custo humano, diz historiador

Alfredo Jocelyn-Holt, de 50 anos, é um dos mais respeitados historiadores chilenos. Graduado pela Universidade Johns Hopkins, dos EUA, e com doutorado em Oxford, na Inglaterra, é autor de best sellers como "História Geral do Chile: Os Césares Perdidos" e crítico tanto da era de Augusto Pinochet quanto dos governos da Concertação, a coalizão que está no poder desde o fim da ditadura. Em entrevista à AE, ele diz que o êxito econômico do regime militar teve um custo em termos humanos que a sociedade chilena ainda não conseguiu quantificar.Do ponto de vista histórico, qual é a importância de Pinochet para a política chilena? Ele deixa um legado ao país?Pinochet esteve no poder por 17 anos. Por mais de dez anos depois de deixar o poder central, manteve grande influência na política chilena. Nenhuma outra figura chilena do século 20 esteve tanto tempo no centro político e nenhum outro exerceu sua liderança de modo tão totalitário. Ninguém passa um tempo tão longo no comando de um país sem deixar marcas. Pelo menos três pontos do regime militar ainda influenciarão a política do Chile por um longo tempo: a Constituição de 1980, as conseqüências da perseguição política e a reforma econômica neoliberal. Estes pontos admitem interpretações diferentes pelas várias facções políticas da sociedade chilena de hoje - que permanece dividida entre defensores e adversários do regime. A Carta de 80 definiu, além da atual institucionalidade, a participação do Estado nas receitas do cobre, que responde por cerca de 30% do PIB do país. As conseqüências da repressão - da punição dos responsáveis à reparação econômica das vítimas - ainda alimentam posições radicais. A reforma neoliberal incutiu uma nova cultura nos agentes econômicos do Chile. Esses temas são parte de um legado tão sólido que o governo civil que sucedeu a Pinochet teve de incorporá-los e administrá-los.As denúncias de corrupção surgidas nos últimos anos não enfraqueceram este legado?Em termos históricos, não fragilizaram o legado do regime. Mas isolaram Pinochet. Foram surpreendentes para a direita, que sempre deu de ombros para as denúncias de violações de direitos humanos. A acusação de enriquecimento ilícito teve um custo altíssimo para Pinochet, pois o isolou dos setores que sempre lhe deram apoio. Após as denúncias, as milionárias doações feitas por empresários à Fundação Pinochet, por exemplo, pararam. No fim de sua vida, era um homem solitário.Levando-se em conta as linhas traçadas pelo governo de Salvador Allende até 1973, é possível imaginar que tipo de país seria o Chile hoje se não existisse Pinochet?Como historiador, não posso fazer uma análise com base em elementos contra-factuais. Só podemos lembrar o fato de que a Constituição de 1925 previa a possibilidade da formação de um governo cívico-militar, caso as instituições do país estivessem ameaçadas por um governo fraco. Pela lógica constitucional, um governo desse tipo poderia substituir o governo de Allende, que enfrentava sérias dificuldades políticas e sociais, já tinha sobrevivido a uma tentativa de golpe e cambaleava. Os militares tradicionalmente se reservam o direito do controle da estabilidade política do Chile. A influência dos militares na política chilena é uma tradição que não acabou nem mesmo com a reforma da Constituição de 1980, promovida pelo governo atual. E se consolida a cada década. Michelle Bachelet (atual presidente) é filha de militar, foi ministra da Defesa e tem vínculos profundos com a família militar. O Partido Socialista chileno, de Bachelet, foi fundado por um militar.O Chile de hoje é um exemplo de modelo econômico bem-sucedido na região. Qual a participação do regime de Pinochet nisso?Há o óbvio: Pinochet implementou uma reforma neoliberal que privatizou estatais, investiu na infra-estrutura econômica e reverteu o quadro no qual o Estado administrava 80% do PIB do país. À frente de um regime totalitário, pôde fazer isso sem contestações. Há um fator menos óbvio: os 17 anos de ditadura incutiram na sociedade chilena, até então fortemente estatista, a cultura da liberdade de mercado e do empreendimento. O governo atual tem-se limitado a administrar essa situação.O sucesso econômico foi um prêmio de consolação após as perdas humanas causadas pelo regime?Esses são fatos históricos. Não se pode dizer que um possa compensar outro. O que não se pode negar é que o regime de Pinochet teve um custo altíssimo em termos humanos e de enfraquecimento das instituições, cujas conseqüências ainda estão pendentes. O sucesso econômico, inegável, não foi capaz de promover a reconciliação social. A prosperidade imposta por um regime de terror não reduziu as diferenças sociais, não promoveu distribuição de renda mais justa, não venceu a apatia dos mais jovens em relação à política. Esse custo não se pode medir.O sr. acredita que Pinochet já pensava em dar um golpe quando foi nomeado chefe das Forças Armadas por Allende?A improvisação sempre foi uma característica de Pinochet, que até 1973 era pouco mais do que um burocrata militar de biografia comum, sem um histórico de sublevação. Pode-se depreender daí que a decisão de liderar um golpe tenha sido produto de um certo oportunismo, de alguém que estava no lugar certo na hora certa. Em setembro de 1973, é levado por setores do Exército a tramar um golpe de Estado. E tem para isso o apoio dos EUA. De um dia para o outro, não só o poder, mas o poder total do país - sem parâmetros na história chilena - está nas mãos de um homem comum. Pinochet mostra um certo grau de astúcia e instinto de sobrevivência, e usa o clima político de pré-guerra civil em benefício próprio e do Exército.O sr. já ouviu versões de que a mulher de Pinochet, Lucía Hiriart, o incitou a liderar o golpe?Já, mas não há registro histórico seguro disso. Aparentemente, é uma versão folclórica da história. É difícil acreditar nas versões segundo as quais ela teria ascendência significativa sobre ele.As perdas humanas causadas pela repressão privaram o Chile de quadros políticos importantes?Há um dado sinistro nos números da repressão: o tema da tortura é ainda mais grave do que o dos desaparecidos, pois envolve muito mais vítimas. A comissão Valech listou mais de 30 mil vítimas da ditadura - a maioria torturados. Em comparação com a Argentina, por exemplo, seria exagero falar de uma geração perdida no Chile. A geração de líderes sindicais, estudantis e sociais de 1973 estão no poder hoje e governam o Chile. Não foram exterminados, mas muitos tiveram de sobreviver à tortura. Esse grande número de torturados causou ao país complexos de ordem psicossocial que ainda não conseguimos medir. Há estudos que vinculam, por exemplo, a cultura da tortura e da violência institucional aos assustadores índices de violência familiar no país. Essa distorção é mais uma faceta do custo do totalitarismo que ainda não pudemos quantificar.

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