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Êxodo desesperado em direção à UE

A imagem de uma criança síria jazendo sem vida numa praia do litoral turco acordou duas forças políticas na Europa

The Economist, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2015 | 02h03

Por tempo demais, a Europa fechou os olhos para a carnificina e a perversidade da guerra civil que devasta a Síria, mantendo-se alheia ao sofrimento de milhões de pessoas. De uma hora para a outra, porém, duas forças políticas escancararam os portões do continente. Uma delas foi a consciência moral, que, sacudida pela imagem de uma criança síria jazendo sem vida numa praia do litoral turco, finalmente acordou. A outra foi a coragem política da chanceler alemã Angela Merkel, que orientou seu povo a pôr de lado o medo dos imigrantes e a demonstrar compaixão pelos necessitados.

Dezenas de milhares de pessoas em busca de asilo partiram rumo à Alemanha, de trem, de ônibus ou a pé, cantando: "Alemanha! Alemanha!", para serem recebidas por multidões, que as saudaram com gritos de viva e salvas de palmas.

Os alemães dão mostras de que a velha Europa também é capaz de abrir os braços para as legiões de indivíduos exauridos e depauperados que anseiam respirar com liberdade. O país declara poder receber não milhares, mas centenas de milhares de refugiados.

Reações. Com a chegada de tanta gente, muitas preocupações devem vir à tona. Soarão gritos de alarme contra o perigo de que, sob o peso dos estrangeiros, culturas inteiras acabem submergindo, economias se sobrecarreguem, benefícios sociais tenham de ser restringidos e até mesmo que terroristas se infiltrem. A popularidade dos partidos anti-imigrantes está em alta em toda a Europa. Nos Estados Unidos, também, alguns políticos falam em construir muros para impedir a entrada dos estrangeiros.

Mas há um equívoco enorme no impulso que leva as pessoas a ver os migrantes principalmente como um fardo. A resposta a esses medos tão conhecidos não é erguer mais barreiras, mas administrar as pressões e os riscos, a fim de garantir que a migração proporcione uma vida melhor tanto para os imigrantes quanto para seus anfitriões. Para começar, nada melhor que um pouco de senso de perspectiva.

Destino. Willkommen, bienvenue, salaam alaikum. Por ser um continente próspero e pacífico, cercado por vastas áreas de pobreza e caos, a Europa é um polo de atração para inúmeras pessoas que saem de seus países em busca de uma vida melhor. Os 4 milhões de refugiados sírios em alguma medida se equiparam ao 1,2 milhão de refugiados produzidos pelas guerras dos Bálcãs, nos anos 90, e aos 15 milhões resultantes da 2ª Guerra.

Segundo cálculos do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), há em todo o mundo 59,5 milhões pessoas que foram expulsas dos lugares onde viviam. A Europa não tem como acomodar essa gente toda. E, de qualquer forma, a maioria das pessoas prefere viver em paz em seus próprios países. Além do mais, a história da migração é um compêndio de receios exagerados, com exemplos à farta de exilados que formaram comunidades vibrantes, enriquecendo os países que os acolheram: os judeus, os armênios, os vietnamitas da crise dos botes de 1978-79 e os asiáticos ugandenses, para citar apenas alguns. A "Willkommenskultur" - cultura de acolhida - alemã é correta em termos morais, econômicos e políticos. E serve de exemplo para o resto do mundo.

As autoridades governamentais precisam levar três grupos de indivíduos em consideração: os refugiados, as pessoas que migram por razões econômicas e seus eleitores. Começando pelos refugiados. Os sírios constituem o maior contingente de indivíduos em busca de asilo na Europa. Oprimidos pelas bombas de barril do regime de Bashar Assad e pelos jihadistas do Estado Islâmico, eles claramente se enquadram na definição de refugiados com "fundado temor de perseguição", como estipulado pela convenção da ONU de 1951. Ajudar os sírios é evidentemente um dever moral.

E essa é uma responsabilidade que cabe não apenas à Europa, mas ao mundo inteiro. É preciso uma política coordenada que administre a crise síria ao longo de toda a cadeia de deslocamento dessa população. Tem de haver um esforço concatenado para conter a guerra, a começar pelo estabelecimento de áreas de proteção.

As agências da ONU estão sobrecarregadas e precisam receber mais recursos para dar prosseguimento a suas atividades. Os vizinhos da Síria, que absorveram o grosso dos refugiados, também precisam de ajuda para oferecer educação e emprego, não apenas tendas no deserto. Os EUA, os demais países ocidentais e, em especial, as ricas monarquias do Golfo precisam reassentar um número muito maior de sírios - tal como fizeram com o 1,8 milhão de indochineses reassentados nas décadas de 70 e 80.

Caminhos. Os países por onde passam as rotas de refugiados têm de ajudar na administração dos fluxos humanos e absorver pelo menos algumas dessas pessoas. Os refugiados precisam ter condições de solicitar asilo na Europa sem arriscar a vida nas mãos de traficantes de pessoas. Isso pode exigir a instalação de centros de processamento nos países por onde passam essas rotas. E é preciso haver uma distribuição justa de refugiados entre os países da União Europeia. Outros migrantes, cujo ingresso seja negado, precisam ser repatriados com rapidez. Os países dos Bálcãs ocidentais (Albânia, Kosovo, Sérvia) precisam ser considerados seguros.

Trabalho. Entre os refugiados, também estão pessoas que migram por motivos econômicos. Embarcam nos mesmos navios. E a má vontade que esse tipo de migrante inspira acaba por minar o apoio aos refugiados. Como, então, lidar com aqueles que estão em busca de uma vida melhor, não apenas de uma vida mais segura?

Embora não possam escolher os que vêm em busca de proteção, os países anfitriões querem selecionar quem vem para trabalhar.

A disposição para acolher migrantes legais confere aos países latitude maior para voltar as costas aos ilegais - a emissão de um número maior de vistos de trabalho faz com que os países vizinhos tenham participação mais ativa no sistema e, assim, os incentiva a cooperar no combate aos fluxos ilegais. A questão fundamental, no entanto, é que a Europa precisa dos migrantes econômicos.

Os países europeus não dispõem de trabalhadores em quantidade suficiente para arcar com as aposentadorias de seus cidadãos ou para oferecer os serviços que desejam. Entre os custos que representam e as receitas que geram, os migrantes são contribuintes líquidos para os cofres públicos. Injetam dinamismo na economia. São, quase que por definição, pessoas empreendedoras.

O problema é que os eleitores europeus talvez não se entusiasmem muito com isso. Os recém-chegados precisam de moradia e acesso a saúde. Há evidências de que eles afetam negativamente o rendimento das faixas salariais mais baixas - ainda que o impacto seja pequeno. Em países com mercados de trabalho rígidos, eles se tornam uma subclasse. No entanto, a consequência lógica disso não é que a Europa precisa de paredes mais grossas, e sim que o Velho Continente necessita de boas políticas públicas - em especial, do tipo que estimula a formação de mercados de trabalho abertos e flexíveis de que os europeus tanto carecem - com ou sem migrantes.

Os eleitores temem que os imigrantes não se adaptem. Na identidade europeia moderna ainda se esconde uma antiga noção de cristandade. Desde os atentados terroristas do 11 de Setembro nos EUA e dos assassinatos cometidos por terroristas na Europa, as relações com as minorias muçulmanas azedaram.

O sentimento de compaixão por muçulmanos necessitados, no entanto, é parte essencial do antídoto contra as odientas ideologias jihadistas, ao contrário de milhões de sírios maltratados, abandonados à míngua nas fímbrias da Europa, que serviriam de fonte para um extremismo que não respeitará fronteira alguma.

Amai, pois, o estrangeiro. É claro que há limites para a quantidade de migrantes que uma sociedade é capaz de comportar. Mas os números que a Europa se propõe a acolher estão longe de rompê-los.

A tolerância social não é uma coisa estática. Ela muda com o tempo, com as circunstâncias e com as lideranças. A Willkommenskultur mostra que o povo europeu é mais acolhedor do que supõem seus políticos paranoicos. A política do medo pode ser vencida pela política da dignidade. Angela Merkel entendeu isso. É o que resto do mundo também precisa entender./ Tradução de Alexandre Hubner

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