Êxodo vira alternativa à guerra na Síria

Desde o atentado de Damasco, milhares de sírios deixam o país rumo ao Líbano

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h05

Enfileirados por mais de uma hora no posto de fronteira de Masnaa, milhares de veículos completamente carregados traziam amarrados ao teto colchões e cobertas, além de enormes sacos de roupas. No interior, vinham o motorista e, quase sempre, o maior número possível de passageiros. Eles são os novos refugiados do conflito armado na Síria, que atingiu Damasco, o coração do regime de Bashar Assad.

Desde a intensificação dos combates em bairros de periferia, e agora também próximo ao centro da cidade, sírios que durante 16 meses se sentiram protegidos na capital agora sentem os efeitos da guerra.

Desde o atentado de quarta-feira, que matou autoridades do regime, entre os quais o ministro da Defesa, o general Daoud Rajha, e o vice-ministro, Assef Shawkat, cunhado de Assad, o fluxo de exilados não para de crescer no Líbano, na Jordânia, na Turquia e até no Iraque, país que, para os sírios, se transformou em porto seguro.

Segundo dados do Alto Comissariado de Refugiados das Nações Unidas (Acnur), em 48 horas, 30 mil sírios deixaram o país apenas em direção ao Líbano. Na quinta-feira, auge da corrida às estradas, 20 mil pessoas passaram pelo posto de Masnaa, quatro vezes mais do que o fluxo normal no maior ponto de passagem de imigrantes da fronteira sírio-libanesa.

A maior parte se dirige ao sul do país, a Beirute, ou a municípios das regiões de Tiro, Zahrani, Bint Jbeil e Nabatiyeh, em busca de parentes, amigos ou de um quarto de hotel.

Volta para casa. Trazem consigo histórias semelhantes. Os relatos feitos ao Estado falam de bombardeios próximos, explosões e rajadas de metralhadoras, espalhando insegurança e incerteza quanto ao futuro. Muitos dos que ficaram se enclausuram em casa, com medo de sair às ruas, sofrendo os efeitos do comércio fechado e da escassez de alguns gêneros alimentícios nos bairros mais atingidos pelo conflito.

Mahmoud H., comerciante de 53 anos, trouxe a família e retornaria à Síria, apesar do receio. Ele estava no Líbano para levar a mulher e os filhos, que se hospedariam na casa de parentes. Com ele, outros três amigos, todos homens de classe média, haviam feito o mesmo.

Na tarde de sexta-feira, todos retornaram à capital sozinhos. "Damasco é a nossa cidade. É onde está tudo o que temos. Precisamos retornar, mesmo que o conflito esteja aumentando", afirmou Mahmoud, que simpatiza com Assad, mas tenta manter neutralidade. "Assad não é má pessoa. É um bom presidente, mas está cercado de imbecis."

Além de sírios, imigrantes de outras nações árabes que viviam na periferia de Damasco agora também fogem do país. Os casos mais emblemáticos são os de iraquianos e de palestinos, que haviam escapado para a Síria em busca de estabilidade política e de segurança. Entre os refugiados iraquianos, a maioria vinha de Seida Zeinab, subúrbios da capital, bastante afetado pelos confrontos.

Eles já somam 88 mil pessoas em fuga. "É triste o que está ocorrendo, mas não temos alternativa. É preciso fugir de novo, porque os combates estão ficando cada vez mais perigos", disse Jalal Merwan, de 25 anos.

Êxodo para o Líbano. Na ONU, a preocupação com o futuro dos civis encurralados pelo conflito na Síria não para de crescer. Desde o início do levante, há 16 meses, mais de 1 milhão de sírios e de imigrantes tiveram de se deslocar no interior do país.

"Os sírios fogem para a Turquia, a Jordânia e o Iraque, mas há um verdadeiro êxodo principalmente em direção ao Líbano", admitiu Antonio Guterres, coordenador da ONU para refugiados, sem esconder a aflição. "Tenho medo pelos civis pegos pela violência em Damasco."

Confrontos. Centenas de famílias também começaram a deixar a cidade de Alepo, que pelo segundo dia enfrentou ontem intensos combates entre as forças de segurança e os rebeldes. Segundo ativistas, as pessoas estão abandonando principalmente o bairro de Saladin, na segunda maior cidade do país, que foi controlado pelos rebeldes e onde bombardeios foram ouvidos durante a madrugada de ontem.

Damasco e Homs também viveram uma nova madrugada de confrontos entre as forças do regime de Assad e rebeldes. Tropas realizaram uma contraofensiva em diversos bairros da periferia da capital, além do centro de Homs. Ainda assim, os sinais de fraqueza do regime se multiplicam, com o levante em Alepo e as deserções de três novos generais de brigada nas últimas 48 horas, totalizando 24 comandantes refugiados na Turquia desde o início do conflito.

Um dos generais desertores, Mustafa Sheikh, disse que Assad estaria transferindo e redistribuindo seus estoques de armas químicas para uma possível retaliação contra o atentado que matou dois de seus generais. O EUA disseram que acompanham de perto o caso das armas.

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