Isadora Kosofsky/The New York Times
Isadora Kosofsky/The New York Times

Com impacto em minorias, pandemia derruba em um ano e meio expectativa de vida nos EUA

Queda, impulsionada pela pandemia, afetou hispânicos e negros americanos mais severamente do que os brancos

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2021 | 18h33

WASHINGTON - A expectativa de vida nos EUA caiu um ano e meio em 2020, em grande parte por causa da mortal pandemia de coronavírus, segundo um relatório federal divulgado nesta quarta-feira, 21. A queda afetou hispânicos e negros americanos mais severamente do que os brancos. Foi a redução mais acentuada na expectativa de vida nos EUA desde a 2ª Guerra (1939-1945), quando o país registrou uma queda de três anos entre 1942 e 1943.

De 2019 a 2020, os hispânicos experimentaram a maior queda na expectativa de vida – três anos – e os negros americanos viram uma redução de 2,9 anos. Os americanos brancos experimentaram o menor declínio, de 1,2 ano. Os números podem variar de ano para ano, fornecendo apenas uma amostragem sobre a saúde geral de uma população: se uma criança americana nascesse hoje e vivesse uma vida inteira nas condições de 2020, essa criança viveria 77,3 anos, abaixo de 78,8 em 2019.

A última vez que a expectativa de vida esteve tão baixa foi em 2003, de acordo com o National Center for Health Statistics, a agência que divulgou os números em conjunto com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs).

Impacto socioeconômico da pandemia

As disparidades raciais e étnicas persistiram durante a pandemia do coronavírus, um reflexo de muitos fatores, incluindo as diferenças na saúde geral e na assistência médica disponível entre brancos, hispânicos e negros nos EUA. Os americanos negros e hispânicos tinham maior probabilidade de trabalharem em empregos públicos arriscados durante a pandemia – motoristas de ônibus, cozinheiros de restaurantes, trabalhadores da área de saneamento – em vez de trabalhar em casa com relativa segurança em seus laptops em seus empregos remotos.

 Eles também dependem mais  de transporte público, correndo o risco de exposição ao coronavírus, ou vivem em casas com pessoas de várias gerações e em condições mais restritas, que são mais propícias à disseminação do vírus.

A ex-secretária de Saúde da cidade de Nova York e professora de saúde e direitos humanos na Universidade de Harvard Mary T. Bassett disse que os números são  devastadores, mas não surpreendentes.  “O coronavírus revelou as profundas desigualdades raciais e étnicas no acesso à saúde, e não acho que já as superamos”, disse Bassett. “Pensar que simplesmente vamos nos recuperar deles parece um pouco ilusório.”

Possibilidade de reversão

A queda vertiginosa verificada em 2020, causada em grande parte pela covid-19, provavelmente não será permanente. Em 1918, a pandemia de gripe eliminou 11,8 anos da expectativa de vida dos americanos, e o número se recuperou totalmente no ano seguinte. Mas Elizabeth Arias, a pesquisadora federal que produziu o relatório, disse que a expectativa de vida não deve voltar aos níveis pré-pandêmicos no país tão cedo.

“Retornar os números da expectativa de vida aos de 2019 exigiria não ter mais mortes em excesso por causa da covid, e isso já não é possível em 2021”, disse Arias. Além disso, disse ela, os efeitos da pandemia sobre a expectativa de vida, especialmente para negros e latinos, podem durar anos.

“Se fosse apenas a pandemia e fôssemos capazes de controlar isso e reduzir o número de mortes em excesso, poderíamos reverter parte das perdas”, disse Arias. Mas mortes adicionais podem surgir como resultado de pessoas que faltam às consultas regulares ao médico por outras condições de saúde durante a pandemia. “Podemos ver os efeitos indiretos da pandemia por algum tempo”, disse.

Americanos cujos parentes e amigos morreram na pandemia viram suas próprias perdas dolorosas refletidas no relatório. Denise Chandler, mãe de oito filhos que mora em Detroit e perdeu o marido e o pai para o coronavírus no ano passado, agora é chefe de uma das muitas famílias negras que sofreram muito com a pandemia - um cenário comum em sua comunidade.

“Vejo muitos filhos sem pai agora e muitas mulheres sem maridos”, disse ela. Chandler deixou o trabalho por quase um ano para ajudar seus filhos a se recuperarem da perda e, mesmo agora, tem muitos dias em que eles mal a deixam sair – porque eles temem que ela também fique doente e morra.

Chandler aponta para o que ela descreveu como atendimento abaixo do padrão no hospital em seu bairro onde seu marido, que morreu aos 35 anos, foi tratado para covid, uma instalação que atende muitos pacientes na comunidade afro-americana de Detroit. “Se ele fosse branco, não estaria naquele hospital”, disse ela. / NYT

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