Foto: Patrick T. FALLON / AFP
Foto: Patrick T. FALLON / AFP

Expectativa de vida nos EUA diminui um ano por causa da pandemia, na maior queda desde a II Guerra

País é o mais afetado pelo coronavírus em números absolutos. Indicador foi de 78,8 ano em 2019 para 77,8, nos primeiros meses de 2020. Entre os negros, queda é de 2,7 anos

The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2021 | 11h00

WASHINGTON — A expectativa de vida nos Estados Unidos diminuiu um ano nos primeiros seis meses de 2020, informou o governo federal americano nesta quinta-feira. Essa é a maior queda desde a Segunda Guerra Mundial e indica as consequências da pandemia do coronavírus no país, o mais afetado em números absolutos pelo vírus. Ao todo, os EUA já tiveram mais de 490 mil mortes e 27 milhões de casos confirmados da Covid-19. 

A expectativa de vida é a medida mais básica da saúde de uma população, e o declínio acentuado em um período tão curto é altamente incomum, sendo um sinal de uma profunda crise. A diminuição do índice no país ocorre após uma série preocupante de quedas menores, impulsionadas em grande parte por um aumento nas mortes por overdose de drogas.

De acordo com os dados do Centro Nacional de Estatística em Saúde dos Estados Unidos (NCHS, na sigla em inglês), divulgados nesta quinta-feira, a expectativa de vida nos EUA é de 77,8 anos — um a menos do registrado em 2019, de 78,8 anos. Os números também indicam um aumento na disparidade racial no país, com a expectativa de vida na população negra caindo 2,7 anos — o que marca um retrocesso de duas décadas.

A diferença de expectativa de vida entre negros e brancos americanos, que vinha diminuindo, é agora de seis anos, a maior desde 1998. Os indicadores são, respectivamente, de 72 e 78 anos. Já para latinos, o índice é de 79,9 anos — um pouco maior do que os outros dois grupos, mas que também sofreu uma queda, de 1,9 ano, em relação ao ano anterior.

Uma justificativa para essa tendência é que a população latina e negra nos Estados Unidos foi mais afetada pela pandemia, de acordo com dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças. 

Especialistas apontam, no entanto, que o índice pode voltar a crescer à medida que as mortes pela Covid-19 diminuem e a população se vacina contra o vírus.

A última vez que uma pandemia causou uma grande queda na expectativa de vida americana foi em 1918, quando milhares morreram em decorrência da gripe espanhola. Naquele ano, o índice caiu em 11,8 anos em comparação ao período anterior, reduzindo a expectativa de vida para 39 anos. No entanto, segundo explica Elizabeth Arias, responsável pelo relatório da NCHS, a expectativa se recuperou totalmente no ano seguinte, quando as mortes pela doença diminuíram. 

Mesmo se tal recuperação ocorrer desta vez, os efeitos sociais e econômicos da Covid-19 permanecerão, alertam pesquisadores, assim como as disparidades raciais. Isso porque a expectativa de vida já vinha em declínio, e as mortes causadas pelo uso de drogas no país continuam a puxar o indicador para baixo.

Mary T. Bassett, ex-comissária de saúde da cidade de Nova York e professora de Saúde e Direitos Humanos na Universidade Harvard, disse que, a menos que o país resolva melhor a desigualdade, “podemos ver a expectativa de vida nos Estados Unidos estagnar ou declinar por algum tempo".

Segundo Bassett, o índice nos Estados Unidos começou a ficar atrás dos de outros países desenvolvidos a partir da década de 1980, uma divergência que intrigou os pesquisadores. 

Uma teoria para isso é que as crescentes disparidades econômicas também afetaram a saúde dos americanos. As condições de vida que levaram a piores taxas da Covid-19, como moradias superlotadas e proteção antivírus inadequada para trabalhadores de baixa renda, só vão exacerbar essa tendência, explica a professora.

A expectativa de vida representa o número médio de anos que um recém-nascido espera viver se as taxas de mortalidade atuais não mudarem. Declínios tendem a sinalizar graves problemas sociais, como a queda acentuada na Rússia após o colapso da União Soviética. 

Os declínios nos países desenvolvidos são raros, mas os Estados Unidos o experimentaram de 2014 a 2017, quando a epidemia de opioides cobrou seu preço. Antes disso, os demógrafos não tinham visto um declínio total desde 1993, durante a epidemia de Aids.

Mas esses declínios, embora incomuns, foram pequenos — medidos em pequenas frações por ano. Os pesquisadores sabiam que haveria um declínio no ano passado, mas a magnitude nos primeiros seis meses os deixou cambaleantes: a queda trouxe a expectativa de vida ao nível mais baixo desde 2006. O último declínio do tipo foi de 2,9 anos entre 1942 e 1943, após os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, disse Arias.

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