Expectativas de mudanças podem ser excessivas

No discurso de posse, Obama desafiou inimigos e prometeu que os EUA voltarão a liderar

John F. Burns, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

O presidente Barack Obama usou seu discurso de posse para prometer a regeneração dos EUA, um país que, nos últimos anos, muitos temiam estar perdido. Ele disse que os EUA estão "prontos para voltar a liderar", apesar da devastação provocada pelas guerras prolongadas e uma economia esgotada.Mas acrescentou a visão de um país que exerce seu poder com justiça, humildade e comedimento. Um país que, embora convencido de que seus valores ainda iluminam o mundo, se compromete a promovê-los por meio da cooperação e o entendimento, além do poderio militar.Com uma dureza que nunca havia sido tão evidente durante a campanha, ele desafiou os adversários dos EUA, que viram este país humilhado pela angústia econômica e pela guerra, e anunciou uma nova ordem mundial na qual os EUA terão de abrir mão de grande parte do seu poderio.Este país hesitante e arrependido, não apareceu em nenhum momento no discurso de Obama, que convocou os americanos a se unir contra "o medo persistente" de que o declínio seja inevitável. Embora oferecesse um "novo caminho para o mundo muçulmano", e advertisse os ditadores de que estão "do lado errado da história", não pareceu muito distante de George W. Bush em seu desafio aos que espalham o terror e a destruição. "Vocês não sobreviverão a nós. Nós os derrotaremos", afirmou.No exterior, alguns tiveram um ar de desprezo, outros tranquilizaram-se com o tema recorrente da política externa no discurso de Obama - a explicação de que, assim que se recompuserem, os EUA não desistirão do papel que desempenharam por tanto tempo de líderes do mundo livre. E embora muitos tenham aplaudido a mudança de tom, outros mostraram-se incertos quanto à possibilidade de uma mudança concreta, considerando a realidade da política americana e o fato de que nada mudou no mundo com a transição em Washington.No Cairo e no Líbano, a maioria mostrou-se cética quanto à sua capacidade de alterar os rumos básicos da política americana, vista por muitos árabes como uma tendência acentuada pró-Israel. Para muitos, a guerra em Gaza sobrepujou o brilho da posse, mas Obama não se referiu a ela em seu discurso.Antigos adversários sugeriram que manterão uma mente aberta. "Saudamos o povo dos EUA", disse o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, enfatizando que espera que a presidência de Obama "indique uma mudança nas relações dos EUA com os países do Terceiro Mundo".Em algumas capitais, a afirmação reiterada de Obama sobre a liderança americana no exterior, e a perspectiva de um presidente americano com um carisma que não era visto desde John F. Kennedy, provocou ciúmes, até mesmo animosidade. Na Rússia e na França, principalmente, houve nos altos escalões sugestões a Obama para que aceite o fato de que os dias de superpotência dominante dos EUA acabaram, especialmente considerando a fuga geral do capitalismo de livre mercado defendido pelos EUA.O tom do discurso de Obama, principalmente a ênfase numa maior cooperação, na promessa de combater a pobreza, a mudança climática e as ameaças nucleares, não deixou entrever uma nova era de prepotência dos EUA. Mas mesmo com um tom radicalmente novo, ele poderá descobrir que os parceiros que procura talvez se mostrem relutantes em compartilhar de um ônus que até agora tem sido a principal responsabilidade dos EUA.Nos dias que antecederam a posse, muitos políticos, acadêmicos, formadores de opinião e outros falaram de Obama em termos claramente eufóricos. Mas não deixaram de alertar que as expectativas eram excessivas e o mundo poderia descobrir que ele está preso a algumas realidades inflexíveis que frustraram seu predecessor, e agora se somam à recessão mundial e ao fato de que esta afetou a reputação dos EUA como modelo de prosperidade e de livre mercado.

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