Expectativas e o fracasso do messias autoindicado

Obama está sendo vítima do que ele mesmo criou em 2008

, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2010 | 00h00

Na livraria Bunch of Grapes, em Martha"s Vineyard, o visitante Barack Obama comprou alguns livros, entre eles O Sol é Para Todos, de Harper Lee. Era um presente para sua filha, mas pode ter inspirado a lembrança de momentos mais doces para o sitiado presidente. Há apenas dois anos, enquanto fazia campanha, Obama inspirava comparações com o nobre advogado Atticus Finch.

Agora, após ter enfrentado alguns dos temas mais espinhosos da política americana - dentre os quais o mais recente é o plano para a construção de um centro islâmico e uma mesquita perto do Marco Zero, em Nova York -, aumenta a probabilidade de ele ser retratado como uma espécie de Atticus Finch por seus eleitores desiludidos.

A livraria deu ao presidente um exemplar de Freedom, novo romance de Jonathan Franzen que conta a história de uma família americana disfuncional. O gesto é adequado, pois Obama é o chefe da família disfuncional formada pelos americanos - um homem racional administrando um país irracional, um homem de ideais elevados numa era de ideais baixíssimos.

O país está sofrendo um estranho tipo de colapso nervoso, com a direita disseminando o medo e a desinformação que são amplificados pela mídia moderna. O debate sobre a construção do centro islâmico desencadeou uma onda de profunda loucura nacional. Libertadas da garrafa, a raiva e a suspeita em relação ao Marco Zero mostram que muitos americanos não superaram o trauma do 11/9 - o que faz deles uma presa fácil para os propagandistas do medo.

Muitas pessoas ainda têm uma opinião confusa em relação aos muçulmanos, e o presidente parece incapaz de guiar o país para longe desta islamofobia. Trata-se de um preconceito estimulado por Rush Limbaugh, que caçoa do "imã Obama" e o chama de "primeiro presidente muçulmano dos EUA", e também pelo evangélico Franklin Graham, que fez os seguintes comentários bizarros a John King, da CNN: "Acho que o problema do presidente está no fato de ele ter nascido muçulmano. O pai dele era muçulmano. A semente do Islã é transmitida por meio do pai, assim como a semente do judaísmo é transmitida pela mãe."

Graham acrescentou: "O Islã ensina a odiar o judeu, a odiar o cristão, a matá-los. O objetivo dos muçulmanos é a dominação mundial."

Uma pesquisa do Centro Pew divulgada na semana passada registrou um estranho aumento no número de americanos que acreditam que Obama seja muçulmano, apesar de todas as provas em contrário. E mesmo os que não acham que ele seja muçulmano também não acreditam necessariamente que ele seja cristão.

O porcentual de americanos que agora acreditam que nosso presidente cristão seja um muçulmano aumentou para 18%. Esta proporção era de 12% quando Obama era candidato à presidência, e 11% após sua cerimônia de posse.

Assim, como alguns americanos chegaram a temer que John F. Kennedy (um católico) fosse construir um túnel até Roma, agora alguns temem que Barack Hussein Obama (um nome que soa assustador) possa construir um túnel até Meca.

Em Ilusões Populares e a Loucura das Massas, uma história de histerias nacionais, o escocês Charles Mackay observa: "Foi dito com sabedoria que os homens pensam como um rebanho; perceberemos que eles enlouquecem em rebanho, enquanto só são capazes de recuperar o juízo lentamente, um de cada vez."

"De todos os frutos do tempo, o erro é o mais antigo, tão ancestral e familiar aos nossos olhos que a verdade, quando descoberta, nos parece mais como uma intrusa, sendo tratada como tal", escreveu Mackay, acrescentando que "um zelo mal colocado nas questões religiosas" é capaz de envolver a verdade numa neblina nefasta.

Pode-se ter uma opinião a respeito da mesquita de Nova York: a favor ou contra. Mas não há dois lados possíveis no fato de Obama não ser muçulmano. Como pode um homem que é o autor de dois livros de memórias muito vendidos e apareceu tanto na TV a ponto de alguns democratas temerem que ele sucumbisse à superexposição se tornar menos conhecido e mais incompreendido a cada dia que passa? O presidente que sempre afirma querer transmitir uma mensagem perfeitamente clara fica mais e mais nebuloso.

Obama, que deve sua presidência aos intensos sentimentos que estimulou durante a campanha, revela-se afinal um sujeito pragmático que não sabe lidar com sentimentos intensos. Pomposo demais para prestar atenção ao desgaste diário da política, Obama foi incapaz de se apresentar como alguém dotado da habilidade de se comunicar com o público. Se as pessoas não o conhecem ou não o compreendem, torna-se mais fácil demonizá-lo.

Obama é vítima das altas expectativas que ele próprio criou em 2008. Ele chegou como um redentor, e então - preso aos nós górdios de George W. Bush e carregando o peso de uma economia esgotada pelas guerras - fracassou em redimir. E, para um país que não conhece seu futuro, nada pode ser mais frustrante do que um messias autoindicado que não cumpre o prometido. Se não somos aqueles por quem estávamos esperando, então quem somos, afinal? / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E ESCRITORA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.