Ken Lambert/Associated Press
Ken Lambert/Associated Press

Experiência de Pelosi em Inteligência foi determinante para inquérito contra Trump

No passado, líder democrata ajudou a redigir a lei que determina como as autoridades de inteligência registram queixas de denunciantes e como tais informações são compartilhadas com o Congresso

Sheryl Gay Stolberg / The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2019 | 08h00

WASHINGTON A presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi e o presidente Donald Trump estavam discutindo a violência armada por telefone na manhã de terça-feira, quando o presidente mudou abruptamente o tópico para uma queixa da comunidade de Inteligência contra o informante (whistleblower) com o qual os democratas estavam falando sobre impeachment.

Pelosi o interrompeu. “Senhor presidente" - declarou ela, de acordo com uma pessoa familiarizada com a conversa - "o senhor está na minha área de especialização”.

A observação foi uma referência à experiência de um quarto de século de Pelosi com assuntos de inteligência no Congresso, um aspecto de sua biografia que exerceu um papel central em sua decisão, na terça-feira, de abrir uma investigação formal de impeachment contra Trump.

A medida é seu ato mais importante como presidente da Câmara, e poderá moldar o futuro da presidência de Trump, das eleições de 2020 e da nação. É o capítulo mais recente de seu relacionamento com o presidente, e uma reviravolta marcante para Pelosi, que até dias atrás resistia à ideia do impeachment de Trump, apesar do profundo desgosto que ela manifestou por ele e por sua conduta.

Para Pelosi, as implicações de Inteligência e Segurança Nacional das últimas acusações contra Trump ajudaram a mudar a maré.

Muito antes de ser presidente da Câmara, Pelosi atuou como a principal democrata na Comissão de Inteligência da Câmara, supervisionando o funcionamento secreto do aparato de segurança nacional dos Estados Unidos e ajudando a redigir a lei que determina como as autoridades de inteligência registram queixas de denunciantes e como tais informações são compartilhadas com o Congresso.

Pelosi sempre foi uma figura que confundiu Trump

Ela viu as últimas alegações contra Trump - de que ele pressionou o presidente ucraniano a investigar um importante rival político e depois trabalhou para eliminar a queixa de um informante da inteligência, detalhando o esforço - como uma notória anormalidade do processo.

Pelosi sempre foi uma figura que confundiu Trump, como uma mulher poderosa sem medo de confrontá-lo face a face, e uma das poucas pessoas em Washington que ele considera um “igual”. Sua ácida crítica contra o presidente pela televisão, durante o “fechamento” do governo no ano passado – “Por favor, não caracterize a força que trago", disse ela a Trump, depois que ele tentou desestabilizá-la durante uma reunião no Salão Oval - tornou o relacionamento deles uma fonte instantânea de fascínio em Washington, mesmo antes que ela se tornasse oficialmente presidente da Câmara.

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Agora, em um momento de profunda divisão na política americana, a deputada enfrenta o presidente mais uma vez, baseando-se em algo que Trump não tem: um conhecimento íntimo da comunidade de inteligência, colhido a partir de 10 anos no painel e mais 15 como membro 'ex-officio', por força de sua posição na liderança.

Ela aborda o assunto com uma atitude provocativa, dizendo aos colegas que está em uma posição única para enfrentar o presidente em questões de inteligência e segurança nacional.

“Alguns de vocês sabem disso, outros não”, disse Pelosi sobre seus 25 anos na Comissão de Inteligência, durante uma reunião a portas fechadas de democratas na noite de terça-feira antes de anunciar sua decisão de impeachment, de acordo com um assessor democrata que estava na sala. “Ninguém nunca serviu na liderança com tanta experiência e exposição em inteligência."

Os republicanos queixam-se que Pelosi abusa do processo de impeachment.

“Acabei ver a presidente da Câmara ontem humilhar o cargo de presidente", disse quarta-feira o deputado Kevin McCarthy, líder da minoria na Califórnia, chamando aquele de “um dia sombrio para o Estado de Direito” e “um dia sombrio” para segurança nacional.

Ele se declarou “enojado com a ação da presidente da Câmara e do partido majoritário, porque eles não gostaram do resultado das eleições de 2016”.

Caso Ucrânia levou a presidente da Câmara ao seu limite

Durante meses, como a esquerda clamava pela tramitação de um impeachment, Pelosi recuou, pedindo cautela. Ela foi guiada por uma profunda convicção de que o processo seria amargamente divisionista para o país e não apenas fracassaria em afastar Trump, mas potencialmente o impulsionaria politicamente, mesmo que prejudicasse os democratas moderados nos distritos de tendência republicana e, por extensão, as chances do partido de manter a maioria da Câmara.

Mas a admissão do presidente de que ele exortou o líder da Ucrânia a investigar o ex-vice-presidente Joe Biden, um dos principais candidatos à nomeação presidencial democrata, e a recusa de seu governo em entregar ao Congresso uma denúncia sobre o assunto, a levaram ao limite.

Em 1998, ela ajudou a redigir uma lei que protegia os informantes da comunidade de inteligência - a mesma lei que os democratas argumentam que Trump está desrespeitando.

“Ela leva muito, muito a sério o fato de termos um estatuto claro, na redação ou aprovação do qual ela esteve envolvida, que diz que você deve entregar esta denúncia”, disse o deputado Tom Malinowski, D-N.J. “Isso é tão claro como o dia. O que estou ouvindo é que é um grande fator na decisão a que ela chegou.”

Comissão de Inteligência era caminho para a liderança

Pelosi, democrata pela Califórnia, ingressou no painel de Inteligência em 1993, apenas seis anos depois de vencer uma eleição especial para preencher uma vaga deixada pela morte de sua antecessora, Sala Burton. Como uma mulher ambiciosa, ansiosa para se destacar, sentiu que precisava obter credenciais de política externa. Ela viu a Comissão de Inteligência como um caminho para a liderança.

“Ela costumava falar sobre ascender à liderança e romper o teto de vidro que era imposto às mulheres - particularmente nas áreas de política externa e segurança nacional, como se essas áreas fossem de domínio exclusivo dos homens”, disse Steve Israel, ex-congressista de Nova York que serviu na liderança com Pelosi.

“Ela sempre teve muito orgulho em superar esse teto de vidro como alguém que não apenas assumiu a liderança da Casa, mas desempenhou um papel de liderança na Comissão de Inteligência”, afirmou Israel.

Ela passou 10 anos no painel, subindo na hierarquia. Depois de se tornar líder democrata em 2003, deixou a lista da comissão, mas continuou ex officio. Isso a torna membro da chamada Gangue dos Oito - os líderes bipartidários da Câmara e do Senado e suas Comissões de Inteligência. A gangue teve reuniões frequentes com os presidentes George W. Bush e Barack Obama, mas não com Trump.

Stacy Kerr, ex-consultora sênior de Pelosi, diz que a exposição pode ter moldado a abordagem da presidente da Câmara a esse atual presidente: “Acho que ela talvez tenha aprendido a arte da discrição, e que seu poder é o que você sabe. Seu poder nem sempre é que você anuncia que sabe”.

O mandato de Pelosi no painel se desenrolou em uma era muito diferente, quando a Comissão de Inteligência era conhecida por trabalhar de maneira bipartidária. Ela ocupava o alto escalão democrata em 2001, na época dos ataques de 11 de Setembro, e foi fundamental na criação de um comitê conjunto da Câmara e do Senado para investigar as falhas de inteligência que levaram ao atentado.

Em 2003, quando Bush procurou autorização para entrar em guerra com o Iraque, Pelosi votou contra, dizendo repetidamente que não acreditava que a inteligência apoiasse a alegação de Bush de que  o país e possuía armas de destruição em massa. Ela mostrou estar certa - uma história que conta em sua autobiografia de 2008, Know Your Power (Conheça seu poder).

“Como democrata sênior da Comissão de Inteligência no momento da votação para a guerra no Iraque, disse à imprensa que quando votei ‘Não' à guerra que a inteligência não apoiava a ameaça iminente que o governo alegava”, escreveu Pelosi. “E a imprensa perguntou: ‘Você está chamando o presidente de mentiroso?’ Estou constando um fato', respondi.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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