AP Photo/Wali Sabawoon
AP Photo/Wali Sabawoon

Atentado do EI no aeroporto de Cabul mata militares americanos e civis afegãos

As duas explosões que ocorreram na manhã desta quinta-feira, 26, foram classificadas pelo Pentágono como 'um ataque complexo'; durante a semana, autoridades ocidentais alardearam sobre ameaça do EI no Afeganistão

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2021 | 10h56
Atualizado 26 de agosto de 2021 | 21h22

Um duplo atentado suicida no Aeroporto Hamid Karzai, em Cabul, no Afeganistão, matou ao menos 13 militares americanos e 60 civis afegãos nesta quinta-feira, 26. O ataque foi o segundo mais letal para tropas americanas desde o início da ocupação e foi executado por dois homens-bomba que se explodiram em pontos distintos dos terminal. A filial afegã do Estado Islâmico, conhecida como Isis-K e rival do Taleban, reivindicou as explosões.

O presidente americano, Joe Biden, deve fazer um comunicado no final da tarde de hoje sobre o ataque. Mais cedo, o Pentágono reconheceu a gravidade do atentado.  "Dois homens-bomba apontados como combatentes do Estado Islâmico se explodiram nas proximidades do Abbey Gate [um dos portões de entrada] do Aeroporto Internacional Hamid Karzai e nas proximidades do Baron Hotel, que fica imediatamente adjacente ao portão. [o ataque] Foi seguido por uma série de homens armados que abriram fogo contra civis e forças militares", disse o general Kenneth Frank McKenzie.

Segundo serviços de saúde afegãos, citados pela agência Efe, 60 civis afegãos também morreram na ação e outros 150 ficaram feridos. As explosões ocorreram na entrada do aeroporto, onde ocorre a retirada de cidadãos ocidentais e colaboradores afegãos da missão da Otan no país. Na noite de quarta-feira, já havia temores de um ataque. A embaixada dos EUA recomendou que cidadãos em três portões de aeroporto saíssem imediatamente do local devido a uma ameaça à segurança não especificada. 

Essas são as primeiras mortes de militares dos EUA no Afeganistão desde fevereiro de 2020, quando dois soldados foram vítimas de um ataque interno, promovido por um soldado afegão. O governo de Donald Trump assinou um acordo com o Taleban algumas semanas depois, que incluía a promessa de que o grupo militante não teria como alvo as tropas americanas.

O atentado ocorre na mesma semana em que autoridades ocidentais externaram preocupação com um possível ataque do Estado Islâmico no Afeganistão - com altos funcionários de governos envolvidos na retirada de civis e militares do país dando indicações claras de que as pessoas evitassem o aeroporto nesta quinta-feira, 26.

O Estado Islâmico no Afeganistão, também conhecido como Estado Islâmico Khorasan (ISIS-K), foi criado há seis anos por dissidentes do Taleban paquistanês. O grupo é grupo afiliado ao Estado Islâmico (EI), que atuou na guerra civil da Síria, sendo apontado como responsável por dezenas de atentados terroristas no país. Apesar de combater as forças ocidentais e o governo afegão deposto nos últimos anos, o ISIS-K também é rival do Taleban - a quem critíca por considerar que o grupo defende uma versão insuficientemente dura do Islã.

"Nós podemos confirmar que um número de militares americanos foram mortos no complexo ataque de hoje no aeroporto de Cabul. Outras pessoas feridas estão recebendo tratamento. Nós também sabemos que uma quantidade de afegãos foram vítima deste ataque hediondo. Nossos pensamentos e orações são direcionados às pessoas queridas e aos companheiros de todos os mortos e feridos", diz o comunicado oficial, divulgado pelo porta-voz do Pentágono, John Kirby, em suas redes sociais. 

Diversas lideranças mundiais alertaram sobre o perigo de uma ataque nos últimos dias, mas da noite de quarta para a manhã desta quinta, novos alertas surgiram sobre a ameaça. O ministro das Forças Armadas britânicas, James Heappey, disse à BBC nesta quinta que havia "uma informação muito confiável de um ataque iminente" no aeroporto, possivelmente dentro de "horas". 

Na terça-feira, 24, o presidente americano, Joe Biden, já havia mencionado o grupo terrorista. "Cada dia que estamos no terreno é mais um dia em que sabemos que o ISIS-K está tentando atingir o aeroporto e atacar as forças dos EUA e aliadas e civis inocentes", disse.

Austrália, Reino Unido e Nova Zelândia também aconselharam seus cidadãos a não irem ao aeroporto na quinta-feira, com o ministro das Relações Exteriores da Austrália dizendo que havia uma "ameaça muito alta de um ataque terrorista". A Bélgica alertou sobre a ameaça de um ataque suicida.

Antes do ataque, em meio aos alertas das autoridades ocidentais, o porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahid, negou a iminência de qualquer ataque. "Não está correto", escreveu em uma mensagem de texto após ser questionado sobre os avisos. Após o atentado, Mujahid voltou a se manifestar, condenando o ataque.

'Preparativos' para o ataque

Em meio ao aumento da preocupação com um possível atentado, os aviões de carga militares que saíam do aeroporto de Cabul já utilizavam sinalizadores para interromper qualquer possível tentativa de disparo de míssil. Também havia uma grande preocupação de que alguém pudesse detonar explosivos na multidão, em frente ao aeroporto - como parece ter acontecido.

Antes do ataque, o primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, chegou a afirmar que recebeu "informações de nível militar" de que "havia indicações de uma ameaça de ataques suicidas contra a massa de pessoas" no aeroporto.

Apesar de todos os alertas, no entanto, poucos pareceram atender aos apelos, na reta final do término do esforço de retirada. Heappey admitiu que há pessoas desesperadas para partir e que muitos estavam dispostos a se arriscar, mas reforçou que as informações sobre a ameaça eram muito confiáveis, antes do atentado se concretizar. "Há chances de que, à medida que mais relatórios forem chegando, possamos mudar a recomendação novamente e processar as pessoas de novo, mas não há garantia disso", acrescentou.

Estado Islâmico Khorasan (ou Estado Islâmico no Afeganistão)

O Estado Islâmico no Afeganistão surgiu a partir de uma dissidência do Taleban no Paquistão, reunindo representantes que têm uma visão ainda mais extrema do Islã. O grupo é uma das muitas afiliadas que do Estado Islâmico (EI) estabeleceu depois que invadiu o norte do Iraque vindo da Síria em 2014 e criou um califado do tamanho da Grã-Bretanha. Desde junho de 2020, sob o comando de um novo líder, Shahab al-Muhajir, o ISIS-K "permanece ativo e perigoso" e busca aumentar suas fileiras com combatentes do Taleban insatisfeitos e outros militantes, aponta um relatório da ONU.

Oficiais de contraterrorismo das Nações Unidas disseram no relatório de junho que o grupo realizou 77 ataques no Afeganistão nos primeiros quatro meses deste ano, contra 21 no mesmo período em 2020. Os ataques do ano passado incluíram um ataque contra a Universidade de Cabul em novembro. Acredita-se que o ISIS-K também tenha sido o responsável pelo atentado a bomba em uma escola na capital, que matou 80 meninas, em maio.

Apesar de combaterem as forças americanas e do governo afegão por anos, o ISIS-K também lutou contra o Taleban ao longo dos últimos anos, e seus líderes denunciaram a tomada do país pelos rivais, criticando sua versão do governo islâmico como uma linha insuficientemente dura.

Prazo final

Em meio às ameaças e à iminente retirada americana, alguns países europeus disseram que teriam de encerrar suas evacuações. O primeiro-ministro francês, Jean Castex, disse à rádio RTL que os esforços de seu país terminariam na sexta-feira à noite devido à retirada dos EUA.

A ministra da Defesa dinamarquês, Trine Bramsen, advertiu sem rodeios: "Não é mais seguro voar para dentro ou para fora de Cabul". O último vôo da Dinamarca já partiu, e Polônia e Bélgica também anunciaram o fim de suas evacuações. O governo holandês disse que os EUA disseram para partir na quinta-feira.

O Taleban disse que permitirá que os afegãos partam em voos comerciais após o prazo final da semana que vem, mas ainda não está claro quais companhias aéreas retornarão a um aeroporto controlado pelos militantes. O porta-voz presidencial turco Ibrahim Kalin disse que conversas estão em andamento entre seu país e o Taleban sobre permitir que especialistas civis turcos ajudem a administrar as instalações./ AP, NYT e W. POST

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