Ahmad Gharabli/AFP
Ahmad Gharabli/AFP

Explosão deixa mais de 100 mortos no Iêmen

Autoridades investigam razões da tragédia em indústria de munição e suspeitam da ação de[br]grupos islâmicos

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 00h00

Em meio a um impasse sobre a transição de poder no Iêmen, uma fábrica de armamento tomada por militantes no domingo explodiu ontem, deixando mais de cem mortos na Província de Abyan, no sul do território iemenita. A maioria das vítimas é civil. O episódio, inicialmente atribuído à rede Al-Qaeda, assustou as autoridades americanas.

No domingo, as informações indicavam que a fábrica, assim como um prédio público, teriam sido ocupados pela rede terrorista. Ontem, moradores disseram que, na realidade, rebeldes separatistas do sul do Iêmen, que se unificou há apenas 21 anos, seriam os verdadeiros responsáveis pela ação.

Tampouco estava claro se a explosão ocorreu em um bombardeio de forças governamentais, por acidente ou por sabotagem dos próprios militantes.

Os separatistas do sul têm se aproveitado da crise do governo do presidente Ali Abdullah Saleh para tentar levar adiante seu movimento.

A Al-Qaeda já vinha usando o território iemenita nos últimos anos para organizar operações terroristas ao redor do mundo. Os EUA atuam ao lado de forças iemenitas para tentar conter a rede terrorista.

Temor de caos. Anteontem, o secretário da Defesa, Robert Gates, confirmou que os americanos estão preocupados com a situação iemenita. Diferentemente de outros países, há o temor de que o fim do regime leve ao caos. Autoridades americanas estão em Sanaa tentando negociar uma saída diplomática para a transição de poder que não coloque em risco os interesses de Washington.

Apesar do envolvimento americano, os dois lados mantinham o impasse sobre como será a transição de poder de Saleh para outras forças. O líder iemenita já concordou em deixar o cargo até dezembro, após 32 anos. Mas exige algumas garantias e não aceita fazer mais concessões.

Membros da oposição, publicamente, também demonstram insatisfação. Mas os dois lados permaneciam negociando ontem em busca de uma solução. Mesmo antes dos levantes, a oposição iemenita era relativamente organizada, principalmente se comparada a outros países.

O acerto entre os dois preveria uma reforma da Constituição para a realização de eleições presidenciais e parlamentares. Saleh quer permanecer até o fim da transição, mas os opositores querem que ele deixe o poder imediatamente.

"Estes que estão famintos pelo poder deveriam defender eleições em vez do caos. Eles conseguirão o poder se confiarem no povo", disse Saleh em discurso ontem. Uma das estratégias do presidente é dizer que o Iêmen caminhará para confrontos militares caso ele deixe o cargo imediatamente.

Conflitos. O Iêmen possui uma série de conflitos simultâneos, além da disputa do poder em Sanaa. Primeiro, há o movimento separatista do sul, que estaria envolvido no episódio da explosão da fábrica ontem.

A segunda disputa é dos rebeldes houthis contra as tropas do governo no norte. A Al-Qaeda também opera a partir de áreas isoladas. Para completar, uma série de tribos possui conflitos domésticos.

No Iêmen, em outro agravante, a maior parte da população adulta é armada. Analistas temem que o país, considerado o mais pobre do mundo árabe, se transforme em uma Somália.

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