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'Explosão em Beirute coloca mais pressão sobre o governo e a economia'

Para professora de História Árabe da USP, incidente no porto da capital vai agravar a fome no país

Entrevista com

Arlene Clemesha, professora de História Árabe na USP

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2020 | 15h00

As explosões no porto de Beirute colocam ainda mais pressão sobre o governo do Líbano e sobre a já fragilizada economia do país. "É o cenário de um país que vem se esfacelando, vem perdendo seus alicerces básicos", afirma Arlene Clemesha, professora de História Árabe na Universidade de São Paulo (USP).  

Os números oficiais indicam que pelo menos 113 pessoas morreram e 4 mil ficaram feridas após as explosões de 2.750 toneladas de nitrato de amônio. Em função do acidente, o governo decretou estado de emergência nacional de duas semanas a partir desta quarta. 

Na avaliação de Clemesha, a população libanesa está cansada de governos em que as filiações políticas e religiosas falam mais alto do que a capacidade de administração. Antes das explosões, Beirute registrou protestos antigoverno. Abaixo, a entrevista completa. 

Como essa explosão afeta a vida política no Líbano, que já estava conturbada e com protestos contra o governo?

Na última década, o Líbano vem sofrendo uma degringolada econômica. Chegou ao ponto de não produzir nem conseguir fazer circular os bens necessários para a alimentação de sua população. Cerca de 80% dos insumos para suprir a população - de alimentos a medicamentos - dependem de importação. A explosão no porto atinge o principal meio de ingresso de suprimentos e coloca um cenário de instabilidade alimentar gravíssimo. 

Já existe fome no país, os organismos internacionais falam na existência de 500 mil crianças que não têm alimentos adequados. Esse porto, além de ser uma importante via de ingresso e escoamento de insumos, é também uma fonte de dividendos para o país. O Líbano não é um produtor de petróleo, mas esse porto é um dos principais da costa do Mediterrâneo, é por onde entram suprimentos também para Síria, Iraque e outros países do Golfo. Agora, por muito tempo vai ficar inoperante e outros canais de ingresso terão de ser encontrados. A situação é de enorme gravidade do ponto de vista econômico e social para o país. 

Isso tem potencial de causar mais tensões? Deve agravar ainda mais os conflitos sociais no país? 

Com certeza. Desde o momento da explosão estamos recebendo notícias de uma possível renúncia do governo que talvez não resista a essa crise. É um novo problema para um país e uma população já muito castigados. Esse governo foi formado em janeiro de 2020 após uma importante onda de protestos que começou no ano passado. O estopim foi causado pela notícia de que o governo cobraria impostos sobre as chamadas de WhatsApp. Era uma população já fragilizada economicamente que podia recorrer a chamadas gratuitas e ia ter mais esse imposto. Isso levou à renúncia do governo e por várias vezes houve tentativas sem sucesso de se formar um novo governo. Em janeiro se formou um com forte articulação do Hezbollah. 

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Quais eram as demandas da população à época desses protestos? 

As manifestações exigiam que o governo fosse formado por técnicos, um governo sem influência política. A população estava cansada de governos sectários onde as filiações políticas e religiosas falavam mais alto do que a capacidade de administração de uma determinada pasta. Queriam um governo capaz de resolver os problemas do país e pediam o fim desse sistema político. 

Mas não foi exatamente isso que aconteceu em janeiro, certo? 

O governo que se formou em janeiro ainda foi marcado por alianças políticas, não foi esse governo técnico que a população exigia. Portanto, desde janeiro podemos dizer que a população já não está satisfeita e vem manifestando esse descontentamento. Essa explosão é mais um impacto na economia e no governo. 

A senhora mencionou a situação econômica, que já não era boa, com a pobreza e a fome aumentando antes disso. Pode detalhar mais? 

É uma situação complicada porque o Líbano tem a tradição de uma classe média bem formada que tem sido muito afetada pela política interna e regional. Recebeu cerca de um milhão de refugiados sírios desde a Guerra da Síria. É uma população que hoje está um pouco inchada. Um país que não consegue lidar com os problemas de toda sua população e nem dos refugiados.

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Há fome, pouca circulação de insumos alimentares e médicos em primeiro lugar. E o governo tenta lidar com isso com medidas impopulares, como limitar saques em bancos. É o cenário de um país que vem se esfacelando, vem perdendo seus alicerces básicos.
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Houve uma greve do lixo há alguns anos em que o país ficou sem coleta por meses. Houve momentos recentes em que não havia governo. Então, é um país que mostra uma incapacidade de se manter dentro do sistema político criado. 

Essa explosão é um sintoma da corrupção endêmica e da incapacidade das autoridades no Líbano?

Essa é a primeira hipótese. A própria população libanesa acusa o governo. O que se sabe desse material, com documentos e cartas reveladas, é que ele veio de um navio russo, com bandeira da Moldávia, rumo a Moçambique. Teve problemas e atracou no porto do Líbano. Essa carga foi trazida dentro do porto e a tripulação acabou desistindo dela. Foi embora e a carga ficou. A suspeita é de que tenha havido uma enorme burocracia em torno do manejo dessa carga. A tripulação ficou presa nas entranhas da burocracia do estado libanês. 

Desde 2014 houve pelo menos três ofícios para diferentes instâncias do governo, um juiz da Suprema Corte pediu autorização para se desfazerem dessa carga, embarcá-la para o país de origem, vendê-la para uma fábrica que pudesse lidar adequadamente. Todos os ofícios chamavam atenção para o perigo que isso representava para os trabalhadores e para o porto. Nada foi feito. Isso mostra uma incapacidade, uma incompetência e uma burocracia sem fim. É isso que a população não aguenta mais em relação ao Líbano. Isso não elimina o fato de que um atentado tenha feito com que aquilo explodisse, mas é fato que houve uma tremenda má gestão. 

Que consequências no curto e médio prazos podemos antever? 

O principal ponto é: essa explosão vai levar a uma mudança no país? A população vem apontando para isso há tempos, a população está na rua há anos. Pedem transformação e uma reorganização da estrutura de comando do país. Querem começar do zero. Precisamos observar o que isso vai representar nos próximos meses e anos.

A explosão chega num momento em que o governo tem uma forte articulação do Hezbollah e alguns dias antes de um julgamento de quatro integrantes desse grupo acusados do atentado que assassinou o ex-premiê Rafic Hariri em 2005. São dois casos que fragilizam o governo e o próprio Hezbollah. É uma semana como poucas para essa organização que é um dos principais partidos políticos e articuladora dos grupos políticos. Espero que isso não leve a instabilidade regional, já há um flanco aberto com o Irã, que é aliado do Hezbollah. 

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