Explosão mata 56 xiitas em Cabul, no pior ataque sectário da era pós-Taleban

Duas explosões mataram ontem 60 peregrinos xiitas e feriram centenas no Afeganistão. As vítimas celebravam a Ashura, o principal feriado do xiismo. O maior atentado, contra uma mesquita de Cabul, onde 56 morreram, é considerado o mais sangrento ataque sectário no Afeganistão desde a queda do Taleban, em 2001. Cresce o temor de que as ações sejam o prenúncio de uma espiral de violência entre xiitas e sunitas.

CABUL, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2011 | 03h06

Tanto o governo do presidente Hamid Karzai quanto um porta-voz taleban condenaram o atentado, realizado na calçada da mesquita de Abul Fazl enquanto peregrinos da região de Logar entravam no templo.

A Radio Mashaal, emissora bancada pelo governo americano, disse que o grupo paquistanês Lashkar-i-Taiba, ligado à Al-Qaeda, telefonou à redação reivindicando a autoria do atentado. Se a informação for confirmada, será a primeira grande operação da organização no Afeganistão. Ataques contra xiitas são frequentes no Paquistão, mas raramente ocorrem em grande escala no Afeganistão.

O presidente Karzai, que participa de uma conferência sobre a reconstrução do Afeganistão, na Alemanha, cancelou a viagem que faria à Grã-Bretanha. Ele disse aos jornalistas que "é a primeira vez, em uma data religiosa tão importante no Afeganistão, que o terrorismo dessa natureza horrível tem lugar".

Uma emissora russa que fazia uma reportagem sobre a Ashura filmou o momento exato da explosão diante da mesquita. O vídeo mostra, inicialmente, homens participando do ritual típico de autoflagelação quando, subitamente, ouve-se ao fundo um forte estrondo.

Em seguida, as imagens são de corpos esparramados pelo chão e empilhados em furgões, entre poças de sangue e gritos de desespero.

Testemunhas afirmam que o militante, que carregava um colete com explosivos, colocou-se discretamente no final da fila de entrada na mesquita. "Foi um barulho muito alto. Fiquei surdo e fui lançado a uns três metros", contou Mustafá, que, como muitos afegãos, não tem sobrenome.

Divisões. Em um incidente menor na cidade de Mazar-i-Sharif, norte do Afeganistão, uma bicicleta-bomba também matou quatro peregrinos xiitas. Até ontem, o maior ataque contra xiitas ocorrido no Afeganistão na última década tinha sido em 2006, quando militantes sunitas mataram 5 peregrinos e feriram 50, também no feriado da Ashura.

Os xiitas representam 20% da população afegã e são quase todos da etnia hazara. O grupo foi massacrado pelo Taleban em combates pelo poder nos anos 90. Desde 2001, a insurgência afegã - formada por sunitas - concentra suas ações em ataques a tropas estrangeiras e forças do governo Karzai. / REUTERS

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