Explosões ampliam tensão no Tibete em aniversário de revolta

Pequim reforça segurança na região, onde ativistas lembram os 50 anos do levante anti-China

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

10 de março de 2009 | 00h00

Explosivos atingiram ontem um carro de polícia e um caminhão de bombeiros em uma cidade na Província de Qinghai, no platô tibetano, na véspera do aniversário de 50 anos do levante contra o domínio da China que levou ao exílio do dalai-lama na Índia. Veja especial multimídia sobre a disputa pela soberania tibetanaDe acordo com o governo, as explosões ocorreram na cidade de Golog e não deixaram vítimas. No domingo, dezenas de tibetanos haviam saído às ruas da mesma cidade para protestar contra a decisão da polícia de parar um caminhão de madeira para verificar a identidade do motorista, num sinal do grau de tensão existente no Tibete e nas províncias vizinhas habitadas por tibetanos - Qinghai, Sichan, Gansu, Yunnan e Xinjiang.Há exatos 50 anos, centenas de tibetanos entraram em choque com tropas do Exército de Libertação Popular, em uma tentativa de obter independência da China. O movimento foi derrotado, mas manifestações de grandes proporções voltaram a ocorrer em 1989 e 2008.No ano passado, monges saíram às ruas de Lhasa para lembrar o levante de 1959 e pedir a volta do dalai-lama, o líder espiritual dos tibetanos que se exilou em Dharamsala, na Índia. Os protestos degeneraram em violência em 14 de março, quando grupos de tibetanos atacaram lojas de propriedade dos chineses han, a etnia majoritária no país, com 91,7% da população. O governo chinês afirma que 18 civis, 1 policial e 3 monges morreram nos confrontos. Os tibetanos no exílio afirmam que o número de vítimas chega a 140 em toda a região.O governo de Pequim enviou nas últimas semanas milhares de soldados ao Tibete e às províncias vizinhas para tentar evitar que as manifestações do ano passado se repitam. A vigilância nas ruas e nos mosteiros foi intensificada e entidades ligadas aos exilados afirmam que a região vive sob uma lei marcial não declarada.O presidente do Comitê Permanente do Congresso do Povo do Tibete, Legqog (tibetanos costumam usar um só nome), afirmou no domingo em Pequim que a presença policial na região é "temporária" e limitada a algumas áreas.Segundo Legqog, o aumento da segurança é necessário em razão da intensificação das atividades supostamente separatistas do dalai-lama e seus aliados. "Eles querem internacionalizar a chamada ?questão tibetana? criando incidentes que minam a estabilidade (...) Mas essas tentativas não terão sucesso", disse Legqog, de acordo com o jornal oficial China Daily.De acordo com uma investigação do grupo de defesa de direitos humanos Human Rights Watch, milhares de pessoas foram presas de maneira arbitrária e cerca de cem estão sob julgamento ou já foram condenadas por causa dos protestos do ano passado. Em alguns casos, os manifestantes que apenas desfraldaram a bandeira tibetana (proibida na China) ou distribuíram panfletos foram condenados sob a acusação de ameaçarem a segurança do Estado. Susan Richardson, diretora da entidade, afirmou que Pequim recusou todos os pedidos externos de informação sobre o número de prisões dos acusados de envolvimento nas manifestações. "As detenções parecem ter sido arbitrários e nós ainda não sabemos quase nada sobre aqueles que ainda estão detidos." A Free Tibet Campaign estima que 1.300 pessoas estão desaparecidas ou na prisão em razão das manifestações de um ano atrás.

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