Explosões em Damasco deixam pelo menos 27 mortos e mais de 100 feridos

Pelo menos 27 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas ontem em ataques simultâneos com carros-bomba contra edifícios que abrigam centrais de segurança e inteligência de Damasco, informaram testemunhas e meios de comunicação oficiais da Síria.

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h06

De acordo com a agência estatal de notícias Sana, o regime de Bashar Assad atribuiu as explosões à ação de "terroristas que tentam desestabilizar o governo". Há um ano, milhares de manifestantes saem às ruas de várias cidades sírias para pedir o fim do regime de Assad, mas as ações têm se concentrado mais no interior do país e, durante meses de conflito político intenso, os ataques na capital, Damasco, eram raros.

O regime de Assad utiliza o argumento de que combate terroristas ligados ao grupo Al-Qaeda para justificar a brutal repressão aos manifestantes da oposição. De acordo com números das Nações Unidas, mais de 8 mil pessoas já morreram na Síria como consequência das ofensivas do regime para frear os protestos.

Entre os mortos no atentado de ontem há civis e membros das forças de segurança. A TV estatal mostrou praticamente o dia inteiro imagens de corpos carbonizados e destroços de carros e edifícios, além das grandes colunas de fumaça que se erguiam do lugar dos atentados.

O primeiro dos ataques teve como alvo a sede da inteligência da Força Aérea, situada no norte da capital síria, enquanto uma segunda explosão foi ouvida minutos depois, por volta das 7h30 locais (2h30 de Brasília), em um edifício do serviço de segurança pública, no oeste da cidade.

"Minha família está bem, mas as janelas da minha casa ficaram totalmente destruídas. A explosão foi terrível", disse uma mulher que vive perto do complexo de segurança.

Na mesma região, um médico da Cruz Vermelha que falou sob a condição de não ter o nome publicado assegurou ter visto pelo menos 40 pessoas feridas, algumas delas com gravidade.

Um funcionário do governo indicou que houve uma terceira explosão ontem, contra um ônibus militar no campo de refugiados palestinos de Yarmouk, na periferia da capital, mas não deu mais detalhes sobre o suposto incidente.

A ação de ontem foi o terceiro grande ataque lançado na capital síria desde o início das manifestações anti-Assad, em março de 2011.

Em dezembro, pelo menos 40 pessoas morreram em Damasco em dois atentados suicidas com carros-bomba que explodiram de maneira quase simultânea nas imediações de dois edifícios da segurança central, num ataque que as autoridades atribuíram à Al-Qaeda.

Em 6 de janeiro, um ataque suicida matou 20 pessoas na capital, enquanto quatro dias depois 28 pessoas perderam a vida em um duplo atentado em Alepo, outra das cidades que se mantêm relativamente à margem da revolta.

Em todas essas ocasiões, grupos de opositores rejeitaram as acusações do regime. Alguns deles responsabilizaram o próprio Assad pelos ataques - que serviriam como pretexto para justificar a brutalidade das forças de segurança oficiais.

Visitas. Assim como as explosões de dezembro e janeiro, ocorridas durante a visita de observadores da Liga Árabe - que pressionavam Assad a parar com a repressão e a abrir diálogo com a oposição -, o duplo atentado de ontem ocorreu um dia depois de o enviado especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan, ter declarado sua intenção de enviar nos próximos dias uma missão técnica à Síria para continuar as conversas com as partes em conflito e encontrar uma solução para a crise.

Em uma carta do governo sírio a Annan, revelada ontem pela Associated Press, o regime de Assad afirma estar "disposto a acabar com a violência", mas insiste que os grupos opositores teriam de depor suas armas antes.

Liderada pelos EUA, uma coalizão de países vem pressionando para que a ONU intensifique as sanções contra o governo de Assad para forçá-lo a parar com a repressão armada.

Essa iniciativa, porém, encontra grande resistência na China e na Rússia - dois países com assento permanente e poder de veto no Conselho de Segurança da ONU. Ambos aceitam a tese do regime de Assad de que o conflito sírio é consequência do combate do governo a grupos terroristas que pretendem desestabilizá-lo - e afirmam ser contra uma intervenções que imponham uma transição. Ontem, porém, o chanceler de Moscou, Sergei Lavrov, pediu que Damasco apoie o esforço de Annan, adotando um tom mais firme com o governo sírio.

Nações do Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita e o Catar, defendem abertamente armar os rebeldes que combatem Assad. / AP, REUTERS e NYT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.