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Série de atentados contra alvos cristãos e hotéis mata mais de 300 no Sri Lanka

Explosões coordenadas em três igrejas e quatro hotéis levam terror a polo turístico asiático, que decreta estado de emergência e toque de recolher por tempo indeterminado; papa Francisco denuncia ‘violência cruel’ e governo brasileiro enfatiza religião de vítimas

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2019 | 04h26
Atualizado 23 de abril de 2019 | 12h07

COLOMBO - Vinte dias depois de um policial alertar para a iminência de atentados contra alvos cristãos no Sri Lanka, o país foi atingido neste domingo de Páscoa, 21, por uma série coordenada de explosões em igrejas e hotéis que matou pelo menos 310 e feriu 500. Foram presos 24 suspeitos de envolvimento nos ataques, cuja autoria não foi reivindicada. A ação mostra a fragilidade de minorias na Ásia, onde governantes têm chegado ao poder ressaltando diferenças étnicas e religiosas.

As primeiras explosões ocorreram às 8h30, contra duas igrejas católicas e uma evangélica, em três cidades diferentes. Todas estavam lotadas de fiéis. A polícia imediatamente ordenou que outros templos fossem esvaziados e reforçou a proteção a universidades e aeroportos. O governo decidiu bloquear os principais redes sociais, em uma tentativa de frear boatos de novos ataques. Foi decretada emergência nacional e toque de recolher entre 18h e 6h, por tempo indeterminado.

O maior número de vítimas foi registrado na Igreja de São Sebastião, na região de Negombo, conhecida como “Nova Roma”, no leste do país. Ali, morreram 62. Outros ataques a templos ocorreram na Igreja de Santo Antônio, na capital, Colombo, e na igreja evangélica Zion, na cidade de Batticaloa, 220 quilômetros ao leste da capital.

Houve também detonações em quatro hotéis, que atraíam clientes para o café da manhã com menus que faziam referência à Páscoa - três deles eram hotéis de luxo. Visitantes buscam no Sri Lanka um lugar seguro para ver elefantes, cultivo de chá e monumentos budistas. Pelo menos 27 vítimas são estrangeiros, entre os quais estão turcos, portugueses, britânicos, americanos e chineses.

Uma última explosão, ocorrida em uma área residencial, está ligada à busca da polícia pelos autores. Três agentes morreram. Segundo o ministro da Defesa, Ruwan Wijewardena, a maior parte das detonações foi realizada por homens-bomba.

Os atentados ressaltam como a coexistência religiosa está ameaçada na Ásia, onde vários governantes têm chegado ao poder enfatizando suas origens étnicas e religiosas. Na Índia, administrada por um partido de direita hindu, o governo faz forte crítica à comunidade muçulmana, que denuncia linchamentos. Em Mianmar, os generais budistas avançaram em uma campanha contra os muçulmanos rohingyas. Na Indonésia e em Bangladesh, políticos muçulmanos moderados endureceram seu discurso para atrair eleitores conservadores.

Com 20 milhões de habitantes, o Sri Lanka é um país majoritariamente budista que conta com cerca de 1,2 milhão de católicos. Segundo o censo feito em 2012, os budistas representam 70% da população, seguidos pelos hindus, com 12%, pelos muçulmanos, com 10%, e pelos cristãos, com 7%.

O arcebispo de Colombo, Malcom Ranjit, pediu às autoridades que “castiguem sem piedade” os responsáveis pelos ataques. “Quero pedir ao governo que conduza uma investigação sólida e imparcial para determinar os responsáveis por este ato. E também que os castigue sem piedade, pois apenas animais podem se comportar assim”, declarou. O papa Francisco chamou o atentado de “violência cruel” e afirmou estar perto das vítimas.

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, usou sua conta no Twitter para comentar os ataques. “Em nome dos brasileiros, condeno os ataques que deixaram centenas de vítimas no Sri Lanka, inclusive em igrejas, onde se celebrava a Ressurreição de Cristo”, escreveu. O chanceler Ernesto Araújo tuitou: “Neste domingo de Páscoa, no Sri Lanka, mais de 200 cristãos pagaram com a vida pela sua fé no Cristo, e amanhecerão com Ele no paraíso”. O deputado federal Eduardo Bolsonaro falou em “cristofobia”.

O presidente americano, Donald Trump, chegou a lamentar a morte de 138 milhões de cingaleses, mas logo corrigiu a estimativa para 138 - número que logo ultrapassou a casa dos 200.

Outras reações

No Twitter, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se referiu ao episódio como um "ataque terrorista" e disse que os "Estados Unidos oferecem sinceras condolências ao grande povo do Sri Lanka. Estamos prontos para ajudar!".

O presidente da Rússia, Vladimir Putin , denunciou as séries de ataques como "cruéis e cínicas". Em telegrama de condolências enviado ao líder do Sri Lanka, Putin disse que Moscou continua sendo um "parceiro confiável do Sri Lanka na luta contra o terrorismo internacional". Ele acrescentou que os russos "compartilham a dor dos parentes dos mortos e desejam uma recuperação rápida para todos aqueles que foram feridos".

A primeira-ministra do Reino Unido, Teresa May, disse no Twitter: "Os atos de violência contra igrejas e hotéis no Sri Lanka são realmente assustadores, e minhas mais profundas condolências vão para todos os afetados neste momento trágico. Devemos nos unir para garantir que ninguém nunca tenha que (praticar) sua fé com medo."

O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, escreveu em uma mensagem ao seu homólogo cingalês estar "atordoado e horrorizado" com os "ataques terroristas covardes". O chanceler austríaco Sebastian Kurz  escreveu no Twitter estar "profundamente abalado e preocupado com os ataques terroristas desonestos".

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, também condenou os ataques "devastadores" contra igrejas e hotéis no Sri Lanka. Em comunicado, Ardern se referiu aos disparos de 15 de março em duas mesquitas da cidade neozelandesa de Christchurch, nos quais 50 morreram. "A Nova Zelândia condena todos os atos de terrorismo e nossa posição só foi fortalecida pelo ataque em nosso solo", disse Ardern. "A Nova Zelândia rejeita todas as formas de extremismo e defende a liberdade de religião e o direito de adoração com segurança." 

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, recebeu com horror e tristeza os atentados em Sri Lanka. No Twitter, ele afirmou que a União Europeia estava pronta para ajudar o país.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, chamou as explosões de "um ataque a toda a humanidade" e ofereceu suas condolências às famílias das vítimas e ao povo do Sri Lanka. 

Bahrein, Catar e Emirados Árabes Unidos emitiram declarações por meio de seus ministérios de Relações Exteriores condenando os ataques. Os Emirados Árabes Unidos conclamaram "a comunidade internacional a fechar o cerco e erradicar o flagelo do terrorismo a fim de garantir a paz e a segurança internacionais". O Catar disse querer enfatizar sua "firme posição em rejeitar a violência e o terrorismo". O Bahrein afirmou que "esses atos de terrorismo são incompatíveis com princípios religiosos e valores humanos e morais". / AP, AFP, EFE e REUTERS

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