'Expor Nisman é esconder a Argentina'

Tentativas de condenação pública de desvios na vida privada atribuídos a promotor morto são'infantilidade política'

Entrevista com

Santiago Kovadloff, filósofo, ensaísta e tradutor argentino

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

22 Março 2015 | 02h01

Durante o enterro do promotor Alberto Nisman, o filósofo Santiago Kovadloff discursou sobre um país sem lei, quebrado institucional e moralmente. Dois meses depois, a investigação sobre a morte está travada em duas perícias com conclusões opostas. A acusação contra a presidente Cristina Kirchner de acobertar acusados de atacar a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia) em 1994, feita quatro dias antes de ser encontrado com um tiro na cabeça, está num tribunal de segunda instância, sem prazo para se manifestar.

Esta semana, Nisman foi chamado de sem-vergonha pelo governo, acusado de gastar dinheiro público com mulheres, e de embolsar metade do salário de Diego Lagomarsino - técnico em informática que a família põe como suspeito. Os ataques, que levaram a Igreja a pedir que "não se enlameasse o campo", fazem o ensaísta e tradutor de 72 nos, que viveu dos 16 aos 20 anos em São Paulo, temer pela recuperação do país.

Alberto Nisman escapará de uma segunda morte?

Temos que tentar fazer com que não seja mais um desaparecido, um esquecido. Nisman está vivo porque a dívida da justiça com a verdade não foi paga. Está vivo como símbolo de uma expectativa da reconciliação social da ética com a política. Essa dívida é muito profunda na Argentina, muito complexa.

O que essa simplificação de sua figura, um paladino ou pervertido, diz sobre a Argentina?

Idealizações e demonizações são provas de uma infantilidade política profunda. Pessoas são complexas. Esra Pound, um dos maiores poetas de língua inglesa, era fascista, Martin Heidegger era fascista, apoiou o nazismo, Jean-Paul Sartre apoiou o stalinismo. Os três foram grandes no que fizeram. Não devemos nos perguntar se Nisman era uma pessoa pura. Ninguém é puro. Pessoas impuras podem realizar atos extraordinários. O que eu sei é que ele tentou chegar a uma resposta para um caso vital para o auto-conhecimento da Argentina. Expor questões relativas a sua privacidade, é esconder quem é a Argentina.

A contradição natural ao ser humano está sendo usada de acordo com interesses? Meu inimigo não pode ser contraditório, eu posso?

O governo não quer falar do que aconteceu, quer falar da pessoa que causou todos esses conflitos. A oposição está aprendendo a colocar a atenção na denúncia. Isso é filosoficamente importante. A verdade que temos que conhecer não é a do sujeito. É verdade da sociedade e da política da Argentina.

No ato por Nisman, em 18 de fevereiro, um argumento governista para reduzir a adesão era de que havia apoiadores da ditadura. Uma marcha pode ser pura?

A complexidade dos fatos socioculturais mostra que numa marcha como essa participarão pessoas que não compartilham as mesmas ideias, mas a convicção que a denúncia deve ser feita. Se os reacionários e ultraconservadores tivessem convocado a marcha, ninguém teria ido. Eles podem participar uma marcha que não organizam, mas não poderiam organizar a marcha da qual participaram. No governo há muitas pessoas indesejáveis, rejeitáveis moralmente, mas nem todo mundo no governo é repudiável. Há pessoas de grande valor que acreditam que coisas estão sendo bem feitas, mas há fascistas e antisemitas. O problema é saber se o governo vai se diferenciar ou não deles.

No que Cristina acertou?

É um erro atacar o governo dizendo que não fez nada. Fez muita coisa. Mas o regime está estruturado para que as iniciativas rendam frutos para um projeto político egocêntrico , presidencialista ao extremo, com a impossibilidade de ser substituído por um regime democrático republicano, que para o kirchnerismo está superado. O sistema fez do poder Executivo a única ferramenta de consolidação política do país a um custo muito alto para a Justiça e o Legislativo. Dentro desse regime autoritário, houve grandes iniciativas. Mantiveram as classes mais pobres em condições menos miseráveis do que no passado. E isso não é pouca coisa. Criaram uma secretaria de Ciência e Tecnologia importante para o futuro do país e na área da cultura também avançaram.

Se miseráveis ficaram menos pobres, cada um tem um voto e são maioria, o que o faz pensar no fim do ciclo kirchnerista?

O que enfraqueceu o regime não foi a falta de apoio desses setores. Foi que a classe média, em circunstâncias econômicas favoráveis até pelo menos 2011, retirou esse apoio porque seus interesses deixaram de ser considerados. O grande desafio de quem se propõe a substituir Cristina é conciliar um governo republicano, constitucionalista pleno, com políticas de Estado socialmente significativas. Que ofereçam não só possibilidade de permanecer sem fome, mas de se desenvolver educação e cultura, dívidas fundamentais que a classe política tem com a sociedade.

Que interesses de classe média foram afetados? A limitação das viagens com o bloqueio ao acesso ao dólar, a inflação?

A classe média começou a entender que qualquer cenário econômico favorável em que a lei tenha valor novamente não vale a pena. Desde 2012, a classe média compreendeu que sem lei não há benefícios perduráveis para ninguém. Nem para os pobres, nem para a classe média. É preciso partilhar um projeto de república para manter no tempo um desenvolvimento significativo.

Quais os indícios de que a lei é ignorada no país?

Há mais de 20 anos que o Estado argentino está submetido a setores que não contribuem para o esclarecimento dos grandes dramas, como o atentado contra a Amia. A falta de esclarecimento não é um problema da comunidade israelita. É uma mostra de que o Estado está submetido a setores de espionagem e de controle que fazem da lei uma ferramenta da demagogia política. O controle ao dólar é sinal de uma economia que não procura investimentos estrangeiros. O governo quer ser um sócio capitalista do desenvolvimento, não um árbitro. Os governantes têm interesses comerciais próprios, por meio dos quais controlam o desenvolvimento econômico. As Forças Armadas foram afastadas do poder no país e agora voltam para controlar, pela espionagem, a oposição. Os controles à liberdade de expressão são muito evidentes.

O governo controla diretamente ou indiretamente a maior parte dos meio de comunicação. Como chega a informação do que está errado?

O interesse é reduzido em relação à política. Os programas de maior audiência são de uma superficialidade insondável. As que se informam sobre os erros do governo se informam através de uma imprensa opositora que existe e está representada por jornais que o governo odeia, como La Nación e Clarín, acusados de serem perversos em tudo. Mas é preciso ser flexível. Nem tudo no governo é ruim. Se um canal de oposição só tem um diagnóstico apocalíptico sobre o governo, está agindo mal.

O argentino parece querer ouvir a si mesmo. Quem é contra o governo lê os mesmos jornais, os mesmos programas de rádio, vive numa bolha que o afasta do vizinho que pensa diferente. Isso é sintoma de algo?

São problemas que provêm da fundação do país. A Argentina é o único país que desenvolveu uma guerra civil ao mesmo tempo que uma guerra de emancipação da Espanha. Isso causou uma fragmentação tão profunda que o general San Martín, quando voltou para a Argentina, na década de 20 do século 19, não ficou porque estava convidado a lutar contra seus compatriotas. Morreu na França. Demorou muito tempo para se transformar a emancipação num projeto constitucional sólido.

Como filosofar em meio a essa polarização?

Minha função é também desenvolver uma crítica à oposição. Ela é fraca. Não há uma abundância de ideias frutíferas e profundas. A oposição tem a fraqueza própria de um sistema democraticamente muito frágil. Por isso as alternativas ao governismo não são boas. Não estamos em 1983, em que Raúl Alfonsín estava investido de uma idealização louca. Ninguém pensa que na oposição há figuras avassaladoras. Mesmo com a necessidade de uma alternância de poder, da saída de um regime autoritário caudilhista, não é uma alternativa consolidada.

Quanto dessa falha institucional recai no kirchnerismo?

A Argentina tem consigo uma dívida de mais de 30 anos. Nossa democracia está inconclusa. A transição do autoritarismo à democracia não foi feita de maneira plena ou suficiente. Nossos regimes democráticos foram mais formais que substanciais. Na ordem econômica, cultural e social, nossos presidentes não conseguiram consolidar a república e as instituições democráticas. Essa inconclusão gerou uma profundo ceticismo social. Por isso os Kirchners, principalmente Néstor, aproveitou esse capital social para criar um neocaudilhismo, com muito sucesso. Isso é fruto de um ceticismo relacionado à democracia. Os presidentes anteriores não terminaram de devolver a credibilidade social necessária através de justiça social e instituições representativas.

O próximo governo será totalmente diferente desse, vendo os postulantes?

Não acredito em redenção. Não acho que as polarizações sejam boas. Um governo que não seja peronista (do qual o kirchnerismo é a vertente mais radical) pode sublinhar uma tendência interessante de reconstrução republicana necessária. Mas o capital intelectual e humano da oposição expressa a imaturidade da sociedade argentina. Deve ter uma diferença interessante, um matiz, uma acentuação maior na lei, nas instituições, na relação entre a política e as necessidades sociais. Mas o principal são as políticas de médio e longo prazo.

A Argentina sem a presidente Cristina Kirchner é um país em que acaba o kirchnerismo, ou teremos uma possível governadora ou senadora, até por proteção jurídica?

Há evidências de que ela está procurando esse cargo. Não quer se afastar da política ou da imunidade que a política pode lhe dar. A dúvida é se o peronismo vai subsistir, e eu acho que vai, chame-se ou não kirchnerismo. Uma pergunta que nos fazemos é se muitos dos que hoje apoiam Sergio Massa (um ex-kirchnerista), vendo que ele não tem chances, não vão passar para o governismo, apoiando o Daniel Scioli (governador de Buenos Aires, um peronista moderado). Isso pode fazer o peronismo surpreender.

O presidenciável Mauricio Macri (prefeito de Buenos Aires, de direita), que buscou apoios no peronismo, com o ex-piloto Carlos Reutemann, na União Cívica Radical, partido opositor com forte base no interior, e na deputada Elisa Carrió, maior crítica do kirchnerismo, foi criticado por fazer uma salada ideológica, algo que pesou na crise de 2001. Essa aliança pode garantir governabilidade?

Acho que sim, principalmente porque parte do peronismo deve apoiar. Nem todo mundo no peronismo esconde o cansaço. Vamos ver como reagem os sindicatos. Não sei se (Hugo) Moyano (sindicalista que rompeu com Cristina está tão descontente com o PRO (partido de Macri) e o radicalismo. O sindicalismo, a meu ver, terá um grande papel nessa estabilidade.

O candidato que a presidente prefere, o ministro dos Transportes Florencio Randazzo, tem menos chance de vitória. Se apoiar o governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, com mais possibilidade de vencer, deve ter uma proteção jurídica/institucional maior depois de dezembro. Ela enfrenta um dilema?

É um bom exemplo de uma problemática extrapolítica, pessoal. Ela está agindo assim, em função de seus interesses, ainda dentro do governo. Quando Néstor chegou à presidência, foi celebrado como alguém que devolvia protagonismo ao Executivo em relação a Fernando de la Rúa. Hoje, esse personalismo transformou-se em um projeto político marcado primordialmente pelas questões pessoais da presidente. Ela governa para que seus problemas não comprometam sua liberdade no futuro. Estamos diante de um regime político em que a intimidade, no sentido de vida pessoal, rege na política.

Em 2001, no meio de sua maior crise econômica, argentinos recorreram ao escambo para sobreviver. O kirchnerismo é tão forte ainda porque antes dele havia o caos?

Sem dúvida, o país esteve disposto a qualquer coisa para sair dessa situação. O Néstor chega e diz "a democracia formal republicana não resolveu", vamos centralizar em mim e eu vou contar com o apoio de uma população que sentiu os efeitos. Isso garantiu um grande apoio da juventude, que não queria retórica, queria soluções. Uma das soluções foi que ele produziu inclusão social. Depois, não voltou a um projeto democrático sério. Caiu na tentação do poder perpétuo.

O sr. vê algum plano de regresso político de Cristina?

Se ela se libertar da pressão judiciária que a ameaça (seu patrimônio cresceu acima do que justificaria sua renda e hotéis da família no sul do país apresentaram mais ingressos do que sugeriam os hóspedes que realmente dormiram neles), tentará se manter dentro do campo político. O que ela não tem é descendência política. Cristina não dirige um partido, ela dirige um grupo familiar.

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