Heuler Andrey/AFP
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Exportadores agropecuários alertam para riscos a produtores se Irã suspender importações

​Federação da Agricultura do Estado do Paraná diz que recusa da Petrobrás em abastecer navios iranianos pode ser catastrófica para o setor agrícola; ​para ​ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento​, crise foi mal gerida pelo governo

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2019 | 05h00
Atualizado 25 de julho de 2019 | 09h27

Associações que representam exportadores brasileiros disseram ao Estado que a suspensão das importações pelo Irã em razão da recusa da Petrobrás em reabastecer dois cargueiros iranianos carregados de milho que estão parados desde junho no Porto de Paranaguá por falta de combustível seria grave, por ser um mercado importante.

Na terça-feira a República Islâmica ameaçou Brasília com essa medida drástica caso o governo brasileiro não apresente em breve uma solução para a crise. A estatal, no entanto, alega que as embarcações são alvo de sanções americanas e teme ser punida.

Para a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), o rompimento da relação comercial com Teerã seria catastrófico para o setor agrícola do Brasil. "Além de ser o maior importador de milho brasileiro, o Irã é um dos principais compradores de produtos importantes para o País e para o Estado do Paraná, como soja e carne bovina", afirmou a Faep. 

Segundo Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, a crise com o Irã foi mal gerida pelo governo. “Ao declarar alinhamento com o presidente dos EUA, Donald Trump, Jair Bolsonaro acabou transformando uma questão comercial em uma questão política”, disse. 

De acordo com Barral, a solução da crise foi desnecessária. “A Petrobrás tinha optado por não abastecer os cargueiros iranianos para afastar a possibilidade de ser punida no mercado americano. Quando Bolsonaro falou que estava alinhado com os EUA, criou uma crise que teria de ser resolvida pelo mecanismo comercial.”

Ameaça de Teerã

Em entrevista à agência Bloomberg, o embaixador do Irã em Brasília, Seyed Ali Saghaeyan, disse que entrou em contato com as autoridades brasileiras na terça-feira para informar que seu país buscará novos parceiros para comprar milho, soja e carne se o governo não resolver a situação.

O comércio brasileiro com o Irã é superavitário. No primeiro semestre deste ano, segundo dados oficiais, o Brasil importou US$ 26 milhões em produtos iranianos e vendeu US$ 1,3 bilhão. O principal produto da relação é o milho, responsável por 36% das vendas. A soja vem atrás com 34%.

No caso do milho, o Irã é o maior comprador do Brasil. Apenas em 2018, as vendas brasileiras ao exterior totalizaram 22 milhões de toneladas, das quais 6,4 milhões foram para o Irã.

“Eu disse para os brasileiros que eles devem resolver essa questão – e não os iranianos”, afirmou Saghaeyan. “Se (a situação) não for solucionada, talvez as autoridades em Teerã desejarão tomar decisões já que (o mercado de produtos agrícolas) é um mercado livre e outros países estão disponíveis.”

Em novembro, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu na sua lista negra cerca de 200 navios – cargueiros e petroleiros iranianos ou ligados ao Irã. Entre eles o Bavand e o Termeh, que estão presos no Paraná. O restante da frota continua circulando pelo mundo, carregando e descarregando aparentemente sem problemas.

Na entrevista ao Bloomberg, o embaixador iraniano confirmou que seu país também analisa a possibilidade de enviar combustível para os dois navios, mas essa seria uma opção demorada e cara.

“Países grandes e independentes, como Brasil e Irã, devem trabalhar juntos sem interferência de terceiros ou de outro país”, afirmou Saghaeyan, que teria pedido uma reunião com o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, mas ainda não obteve resposta.  / W.POST, AP e REUTERS, COM DOUGLAS GRAVAS

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