Exposição de corpo de Kim abre transição

Filho do ditador norte-coreano morto, Kim Jong-un faz primeira aparição como líder

CHOE SANG-HUN , THE NEW YORK TIMES , SEUL, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2011 | 03h06

Kim Jong-un, o sucessor do ditador norte-coreano, Kim Jong-il, morto no sábado, fez ontem sua primeira aparição pública como novo líder do país, ao lado do esquife com o corpo do pai. A exposição do esquife em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, marcou também o primeiro ato público da transição de poder.

Ao mesmo tempo, em meio à comoção pública, o regime intensificava uma campanha com a finalidade de incentivar o apoio do país empobrecido ao jovem líder.

Kim Jong-un, de 29 anos, recebeu o epíteto de "grande sucessor" depois de ter sido alçado ao posto mais alto da liderança na Coreia do Norte, cujas manobras internas e lutas pelo poder continuam um mistério para o mundo exterior.

As enormes filas de soldados e cidadãos em prantos que encheram praças de Pyongyang para lamentar a morte de Kim Jong-il e a profusão de elogios ao filho foram a clara indicação de que a transição oficial está em andamento. O filho herda do pai não apenas o manto do poder, mas também o culto à personalidade. A mídia começou a chamá-lo também de "novo líder enviado do céu", descrição até agora reservada ao pai.

A Coreia do Norte anunciou a morte de Kim apenas na segunda-feira. O mundo exterior, apanhado de surpresa, apressou-se a tentar descobrir que rumo tomará um regime mergulhado numa crise de alimentos e armamentos nucleares sob a direção de um jovem inexperiente, que ainda não teve a oportunidade de testar a lealdade dos generais de linha dura e dos funcionários do Partido dos Trabalhadores - veteranos de sangrentos jogos de poder.

"O camarada Kim prestou suas homenagens com o coração partido", declarou a agência oficial de notícias da Coreia do Norte, KCNA, em um breve despacho. A televisão estatal do país mostrou o corpo de Kim Jong-il coberto por um pano vermelho e sua cabeça repousando sobre uma almofada branca. O ataúde estava cercado de crisântemos brancos e de kimjongilias, uma flor que recebeu o nome do líder morto.

Kim Jong-un estava acompanhado por um grupo de veteranos do partido e oficiais militares, dando ao mundo exterior uma indicação de que dependerá deles durante a transição crucial. Mas a lista não incluiu nomes novos nem desconhecidos.

Prestar essas homenagens e jurar respeitar os desejos de um ancestral morto é um gesto político de importância crucial para o filho. A família, a começar pelo avô de Kim Jong-un, Kim Il- sung, o presidente fundador da Coreia do Norte, governou o país por mais de 60 anos.

Em um longo editorial, o diário do principal partido da Coreia do Norte, Rodong Sinmun, legitimou a sucessão dinástica da terceira geração chamando a Coreia "a nação de Kim Il-sung" e "a Coreia de Kim Jong-il". Kim Jong-un foi chamado de "o pilar espiritual e o farol da esperança" dos militares e do povo.

A rádio estatal disse: "A ideologia do respeitado camarada Kim Jong-un iguala-se à ideologia e à vontade do general Kim Jong-il". Multidões de pessoas, algumas soluçando e outras com uma expressão entristecida, depositaram flores em monumentos ao redor de Pyongyang. Bandeiras flutuavam a meio-pau e o comércio fechou as portas.

China e Rússia, aliadas da Coreia do Norte durante a Guerra Fria, rapidamente expressaram o seu apoio à nova liderança. Estados Unidos e Coreia do Sul mantiveram uma atitude cautelosa, mas pediram uma transição pacífica e estável na Coreia do Norte.

O presidente Hu Jintao da China visitou a embaixada norte-coreana em Pequim para expressar suas condolências, enquanto o presidente Dmitri Medvedev da Rússia enviou uma mensagem de condolências a Kim Jong-un.

O governo da Coreia do Sul afirmou em um comunicado: "Apresentamos nossas condolências ao povo norte-coreano. Esperamos que a Coreia do Norte recupere em breve sua estabilidade, e as Coreias do Sul e do Norte possam colaborar para a paz e a prosperidade na Península Coreana".

O ministro da Unificação, Yu Woo-ik, disse que a Coreia do Sul não enviará uma delegação para o funeral de Kim Jong-il, no dia 28. Mas afirmou que o governo permitirá visitas à Coreia do Norte do ex-presidente Kim Dae-jung, que manteve uma cúpula histórica com Kim Jong-il em 2000, e o ex-"chairman" da Hyundai, Chung Mong-hun, que mantinha relações comerciais com a Coreia do Norte.

Na versão da imprensa estatal Kim Jong-il morreu de enfarte por causa do excesso de trabalho e do stress.

Para os estrategistas da região, o pior cenário seria uma turbulenta luta pelo poder com o consequente colapso do comando e do controle das armas nucleares do país.

Mas a transição oferece também oportunidades para Washington e o governo em Seul, segundo David Straub, vice-diretor do Centro de Pesquisa Shorenstein para a Ásia-Pacífico, da Universidade Stanford.

Kim Jong-un é o primeiro líder norte-coreano que estudou pelo menos em parte no Ocidente. Quando adolescente, ele frequentou uma escola na Suíça.

"Haverá novos líderes na Coreia do Norte. E serão mais jovens", ele disse. "As autoridades americanas precisarão avaliar os sinais que enviarão à Coreia do Norte, além do momento e a melhor maneira de fazê-lo."

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