David Fernández/Efe
David Fernández/Efe

Expropriações dão prejuízo a Hugo Chávez

Estudo mostra que empresas têm baixa produção e não conseguem bancar gastos com mão de obra e matéria-prima

Talita Eredia, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2011 | 00h00

Um estudo realizado por economistas venezuelanos mostra que a política de expropriações do governo do presidente Hugo Chávez só deu prejuízo nos últimos anos. As empresas tomadas para desenvolver o país e acabar com as prateleiras vazias e os preços elevados dos alimentos se tornaram indústrias com baixa produção ou praticamente inativas.

Entre 2007 e 2009 , a Venezuela gastou mais com as expropriações (US$ 23 bilhões) do que os investimentos necessários para manter a produção petrolífera da PDVSA, principal fonte de renda do país (US$ 21 bilhões). A cifra não inclui as empresas expropriadas que não conseguiram acordo para as indenizações e submeteram o caso à arbitragem internacional.

O livro Gestión en Rojo, dos economistas Richard Obuchi, Annabela Abadi e Bárbara Lira, do Instituto de Estudos Superiores de Administração (IESA), analisa 16 grandes empresas compradas entre 2007 e 2009 - período da principal ofensiva contra o setor industrial privado. Em entrevista ao Estado, Obuchi afirmou que hoje as empresas não são autossuficientes financeiramente.

"São companhias que não alcançam metas de produção, e a maior parte não consegue nem arcar com as despesas de mão de obra e matéria-prima. Dependem de subsídios do governo, que nem sempre conseguem obter", disse o economista.

Setor estatal. A Confederação Venezuelana de Indústrias estima que mais de 400 empresas foram expropriadas em 2011 - 41% a mais do que as 284 expropriadas no ano passado. Desde 2002, quase mil companhias foram nacionalizadas.

O economista acredita que a política de expropriações deficitárias põe o país em risco de ficar cada vez mais dependente do setor petrolífero. "São medidas que sacrificam o setor privado sem qualquer resultado positivo. Reduzem a capacidade de produção da indústria do país e acabam com a credibilidade para investimentos. Na área de alimentos, não houve aumento da produção nacional, e o país importa 70% do que consome, ampliando a dependência do setor externo. E as importações são pagas pela renda do setor petroleiro", afirma.

Hoje, a Venezuela aparece em 172º lugar no ranking de 183 países analisados pelo Banco Mundial para fazer negócios, atrás dos territórios palestinos, do Iraque e do Afeganistão.

Investimento errado. Em março de 2009, Chávez ordenou a expropriação de uma beneficiadora de arroz da empresa americana Cargill. Segundo o governo, a empresa não cumpria a lei, já que 70% de sua produção não era de arroz integral, o que prejudicaria o abastecimento do país.

O problema é que a indústria só tem equipamentos para beneficiar arroz parboilizado. Após a expropriação, a empresa continua irregular, já que a produção é 100% de arroz parboilizado.

A Venirauto, criada em 2006 em parceria com o Irã para aumentar as vendas do setor automotivo, é outro exemplo de indústria com rendimento ineficiente. Tinha como meta a fabricação de até 10 mil carros entre 2007 e 2008, mas foram fabricadas 2.017 unidades entre 2006 e 2009. Apesar dos resultados ruins, Chávez anunciou neste mês a criação de uma nova joint-venture na fabricação de automóveis - dessa vez, com a China.

Em números

US$ 23 bi é o gasto com as expropriações entre 2007 e 2009

US$ 21 bi é o valor investido na PDVSA

988 empresas foram nacionalizadas desde 2002

BALANÇO NEGATIVO

Rialca

Indústria de alumínio teve as atividades paralisadas por 18 meses desde a expropriação

Açucareira Sucre

Custo da produção de 1 kg de açúcar era de US$ 2, mas o pacote era vendido por US$ 0,60

Inveval e Invepal

Empresas de válvulas e papel, respectivamente, produziam até 20% das capacidades instaladas

Cítricos Roberto Bastardo

Antes, beneficiava 13 mil toneladas de laranja; na safra de 2009, processou 1,7 mil toneladas

Lácteos Los Andes

Era responsável por 35% do mercado de leite; passou a produzir 2,49% da demanda nacional

Cervejaria Polar e Pepsi

Área com infraestrutura industrial foi tomada para construção de moradias

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