Expulsão de brasileiros pode causar problema social na Bolívia

O governo da Bolívia reluta em despejar alguns brasileiros que ocupam terras ilegalmente em sua fronteira, por temer um possível problema social, disseram nesta quinta-feira fontes oficiais.A invasão pacífica dos brasileiros é compensada pela entrada de cidadãos bolivianos no Brasil. "Não posso ordenar o despejo de brasileiros porque deixaria crianças bolivianas órfãs e talvez também mulheres sem marido", disse diretora de Migração do departamento de Pando, Ruth Araúz.Há um mês, o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) boliviano entregou notificações aos seis brasileiros assentados no departamento de Pando. Eles teriam que abandonar as terras, que não podem ser suas por proibição constitucional.Na semana passada, o chanceler Celso Amorim analisou a situação com o ministro de Relações Exteriores boliviano, David Choquehuanca, em uma visita a La Paz.A norma proíbe aos estrangeiros adquirir terrenos numa faixa de 50 quilômetros da fronteira. No entanto, a linha que separa os dois países se confunde em muitas áreas, devido à densa vegetação amazônica e à ausência de sinalização. O resultado é que cidadãos brasileiros e bolivianos passam sem controle algum de um lado para outro da fronteira. O idioma corrente na região é o "portunhol", resultado da intensa relação entre as duas populações.RecursoEm Pando, o INRA identificou pelo menos 200 famílias integradas por brasileiros administrando uma superfície ainda não avaliada. Por isso, começou a entregar avisos para que abandonem as terras. O plano do presidente socialista Morales é dispor da maior quantidade de terras fiscais possível para seu programa de reforma agrária.Um dos seis brasileiros que receberam a notificação é Milton José Soder. Ele é apontado como um dos maiores fazendeiros em solo boliviano e foi o único a entrar com um recurso administrativo contra a determinação do governo.A resposta será anunciada nesta quinta, disseram fontes oficiais. Soder, mais conhecido na região como Chicão, garante que não é proprietário e que só presta serviços a uma empresa boliviana.Há vários anos, o hoje deputado socialista Weimar Becerra apresentou uma denúncia contra o brasileiro, acusado de extração ilícita de madeira e extorsão de camponeses. Segundo Becerra, o sócio de Soder nas atividades agropecuárias é o boliviano Alvaro Pinedo, proprietário de um canal de televisão em Cobija.O diretor do INRA em Pando, Límberg Rossel, explicou que as famílias brasileiras cometeram uma "franca violação" das normas bolivianas e que o prazo de 15 dias concedido para saírem da região já venceu. No entanto, ele admitiu que as autoridades não sabem o que fazer com quem se negar a sair de maneira voluntária.A diretora de Migração do departamento, Ruth Araúz, apóia a intenção de Morales, mas lembra que precisa respeitar os convênios internacionais. "Soder se encontra legalmente em território boliviano. O que ele faz de ilegal é ter um assentamento em terras fiscais" e na faixa proibida pela Constituição, explicou. No dia 13 de junho, em La Paz, autoridades brasileiras e bolivianas voltam a se reunir para avaliar a execução da medida.

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