Expulsão de diplomatas da Síria no Ocidente amplia pressão sobre Assad

Isolamento. Em resposta ao massacre de 108 pessoas em Hula no fim de semana, EUA, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Espanha, Canadá e Austrália ordenam retirada de emissários sírios; em Damasco, Annan alerta para risco de fracasso definitivo da negociação

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2012 | 03h07

Embaixadores e encarregados de negócios da Síria foram expulsos ontem de França, Alemanha, Grã-Bretanha, Espanha, Itália, Suíça, Bulgária, Holanda, EUA, Canadá e Austrália, em uma das mais duras medidas diplomáticas contra o regime de Bashar Assad desde o início dos distúrbios no país, há 15 meses. Ao mesmo tempo, durante visita à Síria, o ex-secretário-geral da ONU e principal mediador da crise, Kofi Annan, declarou que as negociações estão perto de um ponto de ruptura.

A expulsão dos diplomatas aprofunda o isolamento sírio e foi tomada em resposta ao massacre na cidade de Hula, que deixou no sábado 108 mortos, incluindo 49 crianças. À noite, em Paris, o presidente francês, François Hollande, advertiu que a possibilidade de uma intervenção militar "não está excluída".

O Observatório Sírio de Direitos Humanos informou que ontem 98 pessoas, a maioria civis, foram mortas em diversos incidentes de violência no país, mas o número não pode ser confirmado.

As medidas mostram o elevação do tom do Ocidente em retaliação ao regime sírio. No domingo, o Conselho de Segurança das Nações Unidas já havia condenado o regime Assad pela matança - cuja autoria Damasco nega. De acordo com estimativas da ONU, 10 mil pessoas já morreram desde o início da rebelião.

A série de anúncios diplomáticos começou em Camberra, na Austrália, quando o ministro das Relações Exteriores, Bob Carr, informou que Jawdat Ali, representante da Síria, teria 72 horas para deixar o país. "Este é o meio mais efetivo que temos para enviar uma mensagem de repúdio pelo que ocorreu na Síria", afirmou Carr, em nota oficial que classificou a ação militar em Hula como "crime brutal".

Na Europa, coube a Hollande informar no Palácio do Eliseu que a embaixadora síria Lamia Chakkour teria de deixar Paris até hoje. "Tomamos a decisão de exercer sobre a Síria algumas pressões adicionais. Entre elas está a expulsão da embaixadora na França", informou. "Não é uma decisão unilateral, mas organizada com nossos parceiros".

Horas antes, Hollande havia discutido com o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, sobre uma ação diplomática organizada e forte contra Assad. Em comunicado oficial, Downing Street informou que o premiê também havia debatido a adoção de "pressões táticas" com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Ao mesmo tempo, a diplomacia alemã, espanhola, italiana, canadense e americana tomariam decisão semelhante.

Em Berlim, o ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, declarou esperar que "essa mensagem inequívoca não caia em ouvidos surdos em Damasco".

À noite, Hollande tornou a advertência a Assad ainda mais dura. Em entrevista à TV pública France Télévision, ele disse não poder "mais continuar sem reação ao massacre".

O presidente prometeu trabalhar pela adoção de sanções "mais duras do que foram até aqui" e foi além: disse que tentará convencer o presidente da Rússia, Vladimir Putin, da necessidade de uma resolução da ONU que contemple a possibilidade de uma intervenção militar. Putin virá a Paris na sexta-feira. "A hipótese de intervenção armada não está descartada", disse Hollande, "desde que seja feita dentro do respeito das convenções internacionais, no Conselho de Segurança da ONU. Cabe a nós convencer russos e chineses". Para o francês, "não é mais possível deixar que Bashar Assad massacre seu povo".

Cautela em Washington. Os EUA, porém, avaliam que uma intervenção militar agora não é a melhor opção para frear a violência. "Isso criaria apenas mais caos e carnificina", afirmou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney. Ele acrescentou, porém, que nenhuma opção, incluindo a força, pode ser descartada.

Barack Obama tem mantido um tom duro contra o regime de Assad desde o início dos levantes no ano passado. Antes, quando assumiu o cargo, tentou uma aproximação com o líder sírio, chegando a enviar um embaixador para Damasco. Ontem, seu governo ordenou a expulsão do encarregado de negócios da Síria de Washington. O embaixador sírio Imad Mustafá deixou o posto em agosto e atualmente representa a Síria em Pequim.

A decisão de expulsar o diplomata foi elogiada pelo candidato republicano, Mitt Romney. Mas o rival do presidente nas eleições de novembro acrescentou que outras medidas devem ser tomadas, incluindo a de armar a oposição. O governo Obama não apoia essa opção por enquanto. / COLABOROU GUSTAVO CHACRA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.